Para funcionar e entregar internet com qualidade, a Starlink depende de uma constelação composta por milhares de satélites da SpaceX, empresa aeroespacial de Elon Musk.
Porém, além do seu propósito comercial, esse cinturão de objetos flutuantes pode ter ganhado um papel bastante relevante para a ciência.
Recentemente, um grupo de pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão, monitorou a posição de 1200 satélites da Starlink para mapear a densidade atmosférica à sua volta. E os resultados surpreenderam.
Os satélites da Starlink como “diagnosticadores” da atmosfera terrestre
A chamada termosfera fica a centenas de quilômetros acima de nós. Esse pedaço da atmosférica é composto quase que inteiramente por gás eletricamente neutro, o que torna a medição direta um baita desafio para os cientistas.
O grande problema é que, mesmo nessa altitude extrema (por volta dos 500 km), o ar continua denso o suficiente para desacelerar satélites por causa do atrito.
Para contornar essa barreira, os pesquisadores japoneses resolveram adaptar uma técnica bem conhecida da medicina: a tomografia computadorizada. A lógica foi simples, mas bastante engenhosa.
Em vez de depender de sensores tradicionais, o grupo pegou dados orbitais públicos de 1200 satélites da Starlink e mediu o impacto exato da resistência do “ar cósmico” na velocidade de cada um.
Com essa sacada, a equipe construiu o primeiro mapa bidimensional em tempo real da variação horizontal da termosfera.
E para ter certeza de que não estavam se confundindo, os cientistas cruzaram as informações com leituras dos satélites SWARM, da Agência Espacial Europeia. O resultado bateu certinho.
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Resultados que vão além do benefício próprio
Com o espaço cada vez mais entulhado por milhares de novos equipamentos lançados todos os anos, mapear o ar lá em cima deixou de ser só curiosidade teórica. Virou questão de sobrevivência espacial.
Saber a densidade exata dessa camada permite calcular a rota dos satélites com muito mais precisão. Na prática, isso evita manobras desnecessárias e reduz bruscamente o risco de acidentes e colisões em órbita.
Além do ganho de segurança imediato, o método deve trazer outros avanços importantes no futuro:
- Monitoramento em tempo quase real das mudanças súbitas na alta atmosfera;
- Previsões mais certeiras sobre os impactos do clima espacial e tempestades solares;
- Proteção ampla para frotas de qualquer empresa ou agência espacial, e não só da SpaceX.
Como pontuou Mamoru Yamamoto, que liderou a pesquisa em Kyoto, a descoberta só saiu do papel graças à união entre ciência básica e engenharia, um diálogo cruzado que deve deixar o tráfego lá no alto bem mais seguro daqui para frente.












