
Na última quinta-feira (8), o bilionário Elon Musk disponibilizou gratuitamente o serviço de internet da Starlink no Irã para combater o apagão digital imposto pelo governo local durante os protestos em Teerã. A medida visa garantir a comunicação da população após o regime derrubar a conectividade para conter manifestações, utilizando a tecnologia de satélites de baixa órbita para contornar as restrições físicas das operadoras tradicionais e manter o fluxo de informações vivo entre os cidadãos iranianos.
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O cenário da repressão digital e o apagão na rede
O cenário de conectividade no país é crítico e reflete uma estratégia de repressão severa. Dados da empresa Cloudflare indicaram uma queda drástica de 90% no tráfego da rede logo após o início das medidas governamentais. Segundo o site NetBlocks, o nível de acesso caiu para apenas 1% do padrão habitual, afetando uma população de 85 milhões de habitantes. O regime iraniano derrubou a conexão para tentar sufocar os protestos que já duram vários dias e deixaram um saldo estimado de 2 mil mortos.
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A resposta tecnológica da Starlink contra a censura
A Starlink, braço de comunicações da SpaceX, opera através de uma vasta “constelação” de satélites projetada para levar banda larga a áreas remotas. No território iraniano, contas que antes estavam inativas foram subitamente conectadas, com todas as taxas de assinatura suspensas desde a última terça-feira (13). Segundo Ahmad Ahmadian, do grupo Holistic Resilience, o processo para os usuários é simples: basta posicionar o terminal em um local com visibilidade clara para o céu para restabelecer o sinal de forma imediata.

O papel do satélite como ferramenta de soft power
Esta movimentação de Musk reforça o papel da companhia como uma ferramenta de poder em zonas de conflito ou regimes fechados. O bilionário já adotou estratégias semelhantes anteriormente, fornecendo acesso à rede para cidadãos da Ucrânia durante o conflito com a Rússia. Mais recentemente, a empresa também anunciou que ofereceria banda larga gratuita para cidadãos venezuelanos em meio às tensões políticas locais, seguindo o padrão de enfrentamento contra governos autoritários.
Guerra de sinais e o uso de bloqueadores militares
Apesar da oferta gratuita, o governo iraniano tem reagido com táticas agressivas de interferência de sinal para neutralizar as antenas. Especialistas apontam o uso de “jammers”, dispositivos de nível militar que emitem ruídos na mesma frequência dos satélites para embaralhar a comunicação. Esse esforço técnico resultou em uma perda de pacotes de dados que varia entre 30% e 80% em certas áreas, demonstrando que o governo investiu pesado em pesquisa e desenvolvimento para conter especificamente os satélites de baixa órbita.
Diferente do que ocorre em países como o Brasil, onde as operadoras de satélite dependem de bases terrestres, a Starlink consegue prover acesso ao Irã sem infraestrutura local física. Isso ocorre porque o sinal é enviado de volta para bases em outros países, dificultando o controle estatal direto sobre os cabos de fibra ótica. Diante disso, a União Internacional de Telecomunicações (UIT), vinculada à ONU, já emitiu pedidos formais para que o Irã interrompa a interferência intencional nos sinais captados.
Riscos aos usuários e o futuro da conexão no país
A situação é agravada pela total ilegalidade do serviço dentro do território iraniano. As autoridades locais criminalizaram o uso da Starlink, e usuários que instalam os terminais clandestinos correm riscos severos, incluindo a possibilidade de execução pelo regime. Estima-se que existam cerca de 50 mil receptores espalhados pelo país, funcionando como uma “pequena janela” para denunciar atrocidades e manter o mundo informado sobre a realidade das violações de direitos humanos que ocorrem sob um bloqueio total.
O apagão digital atual é o terceiro grande bloqueio geral ordenado pelo Irã desde 2019. Anteriormente, o governo utilizou a mesma tática para conter protestos sobre preços de combustíveis e questões sociais. Desta vez, além de derrubar redes móveis, o regime tenta neutralizar até serviços de VPN, como a Proton VPN, que relatou dificuldades extremas de conexão. A SpaceX não respondeu oficialmente aos pedidos de comentário, mas a ativação dos terminais confirma a postura combativa da empresa contra regimes restritivos.





