13/06/2024

Projeto prevê mapeamento de escolas ‘invisíveis’ para poder público

Projeto reúne diversas entidades em prol de identificar através de inteligência artificial escolas que estão esquecidas pelo poder público.

O Brasil está prestes a se tornar o décimo país no mundo a aproveitar o potencial das imagens de satélite e da inteligência artificial para identificar escolas públicas que estão fora do radar público. Essa iniciativa visa determinar a localização exata de cada escola em funcionamento no país, preenchendo uma lacuna de informações que atualmente afeta de 3 mil a 5 mil estabelecimentos de ensino cujo endereço é incerto ou que simplesmente não estão registrados nas bases de dados governamentais devido à descentralização das informações.

Escolas

A implementação dessa inovadora abordagem depende da concretização do Projeto Giga, uma iniciativa concebida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em colaboração com a União Internacional de Telecomunicações (UIT). O Projeto Giga se propõe a utilizar tecnologias avançadas para identificar e mapear escolas que estão espalhadas por todo o território brasileiro.

Até o momento, nove países já participaram dessa iniciativa pioneira, que inclui o uso de imagens de satélite e inteligência artificial. Esses países são a Colômbia, Quênia, Ruanda, Serra Leoa, Níger, Honduras, Gana, Cazaquistão e Uzbequistão. O Projeto Giga teve seu início em 2019 com o objetivo principal de mapear e conectar todas as escolas do mundo, empregando diversas ferramentas, incluindo a participação da comunidade por meio do crowdsourcing, onde professores e alunos podem autoidentificar as escolas no OpenStreetMaps.

Assim, a implementação do Projeto Giga no Brasil representa um passo significativo na busca por uma educação mais acessível e eficaz, fornecendo informações precisas sobre a localização de escolas que anteriormente estavam “invisíveis” nas bases de dados governamentais. Isso pode contribuir para melhorar o planejamento educacional e garantir que todas as crianças tenham acesso a uma educação de qualidade.

“É um esforço, não só do Brasil, ter inteligência de escolas para planejamento de políticas públicas. Saber exatamente onde está a escola resulta em condições melhores para planejamento de políticas públicas. Entre outras coisas, saber exatamente onde está a escola ajuda na contratação da conexão de internet”, ressalta Jardiel Nogueira, oficial de programas do Giga no Unicef Brasil.

Atualmente, o Grupo de Acompanhamento e Planejamento Estratégico (GAPE) da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) está encarregado de supervisionar o programa chamado “Aprender Conectado”. Este programa tem como objetivo fornecer acesso à banda larga em escolas que não possuem conexão à internet, utilizando recursos provenientes do Edital do 5G.

O GAPE está realizando vistorias em um total de 7.661 escolas públicas, das 183 mil escolas públicas conhecidas no país. Até o momento, 2.316 escolas foram vistoriadas, e destas, 177 foram conectadas como parte de um projeto piloto que utiliza os recursos do leilão 5G. Essas vistorias são fundamentais para o planejamento e execução do plano de conexão das escolas.

Uma fonte ligada às operadoras, que são responsáveis pelo financiamento da Entidade Executora do Aprender Conectado (EACE), relata que há casos de escolas que constam na lista, mas não foram encontradas durante as vistorias, embora esse seja um problema em uma proporção relativamente baixa. Estima-se que mais de 3 mil unidades escolares, das 138 mil conhecidas, não estejam localizadas nos endereços atualmente registrados.

O Projeto Giga, que propõe a utilização da geolocalização, tem como objetivo evitar que escolas sejam erroneamente classificadas como inexistentes. Com endereços atualizados e precisos, torna-se possível efetivamente conectar essas escolas à internet. No entanto, a magnitude do problema ainda é incerta devido à falta de informações detalhadas e centralização de dados. Estima-se que as bases de dados atuais não contenham informações precisas sobre a localização de até 3 mil a 5 mil escolas.

No âmbito local, em abril, o Ministério das Comunicações estabeleceu um Memorando de Entendimento com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com validade de dois anos. Este acordo tem como objetivo principal colaborar em iniciativas de conectividade destinadas a beneficiar crianças e jovens. O projeto mais destacado nesta parceria é a adesão ao Projeto Giga.

Atualmente, está sendo desenvolvido um plano de trabalho detalhado que determinará as atribuições e responsabilidades de ambas as partes, estabelecerá um cronograma e definirá a maneira como o projeto será executado.

Até o momento, foi acordado que o Ministério das Comunicações será responsável por contratar um profissional especializado para treinar o sistema de inteligência artificial fornecido pelo Projeto Giga. Esta ação está pendente de definição de um prazo específico, e este será o único recurso financeiro necessário para a implementação do projeto. Importante destacar que não haverá nenhum outro gasto por parte do governo ou do Unicef nesta colaboração.

Uma vez que o profissional seja selecionado para esta tarefa, ele receberá acesso através de uma API à plataforma de inteligência artificial (IA) e ao vasto banco de dados fornecido pelo Giga, que contém milhões de imagens capturadas por satélites. O seu principal objetivo será treinar a IA para reconhecer e identificar as edificações que representam escolas brasileiras comuns.

É importante destacar que o Brasil é um país de dimensões continentais e apresenta uma grande diversidade geográfica. Isso significa que as escolas podem variar consideravelmente em termos de aparência e localização. Por exemplo, escolas indígenas podem possuir características arquitetônicas distintas das escolas urbanas tradicionais, enquanto áreas geográficas como o Sudão podem apresentar paisagens desérticas que influenciam a aparência das escolas. Portanto, o profissional encarregado desse treinamento deve adaptar o algoritmo utilizado para garantir que todas as escolas sejam identificadas com precisão.

Além disso, o profissional terá a responsabilidade de treinar a plataforma para distinguir entre os diferentes tipos de escolas públicas brasileiras, levando em consideração tanto os ambientes rurais quanto os urbanos. A ferramenta desenvolvida determinará as coordenadas de latitude e longitude de cada escola identificada, o que é crucial para a posterior localização geográfica precisa.

Outra tarefa importante atribuída a este profissional é a verificação cruzada dos dados obtidos com informações de fontes como o Ministério da Educação (MEC), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e outras bases de dados públicas. Isso é feito para garantir que apenas escolas públicas sejam contabilizadas, excluindo escolas privadas, e para identificar quaisquer falhas nos endereços registrados ou escolas que, até então, permaneciam desconhecidas ou “invisíveis”. Esse processo é essencial para obter um retrato preciso e completo das escolas públicas brasileiras e para auxiliar em iniciativas educacionais e de desenvolvimento no país.

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