Entrevista: TV aberta terá navegação por aplicativos

No Dia da Televisão no Brasil, conversamos com o coordenador técnico do Fórum SBTVD sobre o presente e o futuro da TV digital.

Entrevista: TV aberta terá navegação por aplicativos

Nesta quarta-feira, 11 de agosto, é comemorado o Dia da Televisão no Brasil, aparelho que está presente no país desde 1950, há 71 anos. Apesar do avanço da internet e de outras mídias, a TV aberta ainda continua sendo um importante meio de informação, entretenimento e cultura em tempo real. Para muitos brasileiros, ela é ainda a única fonte de informação.

Desde 2007, a TV digital está disponível no país, permitindo um sinal sem chuviscos ou fantasmas. Atualmente, 75% da população brasileira está coberta com o sinal digital, com a meta de chegar a 100% até 2023.

Ainda para este ano, o Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (Fórum SBTVD) – entidade que trabalha para a implantação e o desenvolvimento da TV Digital no Brasil – promete a chegada do DTV Play, recurso que oferecerá conteúdos com o HDR (High Dynamic Range), que reproduz as cores da imagem com muito mais precisão, e áudio imersivo, que leva o telespectador a se sentir “imerso” na cena.

Porém, as novidades não param por aí. Atualmente, o Fórum SBTVD está fazendo os testes de campo para a chamada “TV 3.0”, a evolução tecnológica do padrão atual da TV digital.

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Entre os requisitos estabelecidos está a navegação por aplicativos, aproximando a experiência do telespectador com aquela que ele já tem ao utilizar um smartphone. A ideia é gerar uma maior integração entre o sinal aberto de TV, os aplicativos de streaming e outros serviços de conteúdo, de forma integrada em um mesmo menu.

Para mais detalhes sobre esse novo padrão, assim como tirar dúvidas sobre a atual TV digital, o Minha Operadora conversou com Luiz Fausto, coordenador técnico do Fórum SBTVD. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Um dos benefícios prometidos durante a implantação da TV digital é a possibilidade da multiprogramação. No entanto, o recurso está liberado para as emissoras comerciais veicularem apenas conteúdos sobre educação, ciência, tecnologia, inovação, cidadania e saúde. Por que existe essa limitação?

A multiprogramação é um recurso disponível no Sistema Brasileiro de TV Digital. Cada canal “físico” de televisão (recurso espectral de 6 MHz de largura, nas faixas de UHF ou VHF) pode transportar uma determinada taxa de bits por segundo. Na configuração mais comum, cada canal possui cerca de 17 Mbps de capacidade disponível para recepção fixa e cerca de 500 kbps de capacidade disponível para recepção móvel. A capacidade disponível em cada canal para recepção fixa pode ser usada de duas formas: ou com uma única programação (maximizando a qualidade audiovisual), ou dividida por duas ou mais programações (multiprogramação).

Note que, quanto maior a quantidade de programações no mesmo canal, menor a qualidade audiovisual resultante. A capacidade disponível para recepção móvel é muito baixa para viabilizar multiprogramação móvel com um mínimo de qualidade. Por isso, normalmente, quando se usa multiprogramação, ela está disponível apenas na recepção fixa e apenas uma das programações é disponibilizada para recepção móvel.

Como, no Brasil, o serviço de radiodifusão observa o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal, o compromisso adotado entre qualidade e diversidade foi estabelecido com a radiodifusão comercial fornecendo uma única programação por canal (em alta definição, com a melhor qualidade possível), enquanto a radiodifusão pública fornece multiprogramação (priorizando aumentar a diversidade de ofertas de conteúdo).

Excepcionalmente, durante a pandemia de COVID-19, foi autorizado o uso de multiprogramação também nos canais utilizados pela radiodifusão comercial, com conteúdo específico destinado às atividades de educação, ciência, tecnologia, inovações, cidadania e saúde, mediante a celebração de convênios com a União, os Estados, o Distrito Federal ou os Municípios.

O governo federal tem o compromisso de levar a TV digital para todo o país até 2023? Com essa universalização, você acredita no fim das transmissões da TV aberta via satélite?

O programa Digitaliza Brasil do Ministério das Comunicações visa fornecer uma infraestrutura compartilhada de transmissão de TV Digital Terrestre aos municípios que dispõem de transmissão de TV analógica e ainda não dispõem de transmissão de TV Digital, além de distribuir kits de recepção de TV Digital às famílias de baixa renda cadastradas nesses municípios. Isso vai ampliar a cobertura da TV Digital Terrestre, e pretende equipará-la à cobertura analógica.

Não é técnica ou economicamente viável cobrir 100% do território brasileiro com TV Terrestre, nem analógica nem digital. A TV aberta por satélite continuará exercendo um papel fundamental de complemento de cobertura para as áreas remotas ou desassistidas do país, além de um complemento de oferta de diversidade de conteúdos para as localidades com poucos canais de TV Digital Terrestre disponíveis.

Em maio passado, o Ministério das Comunicações publicou uma portaria no qual estabelece que os telefones celulares passem a contar com o recurso de recepção de rádio FM. O mesmo poderia acontecer um dia com a TV Digital, com os usuários assistindo a TV digital pelo celular?

A referida Portaria visa os telefones celulares que possuem o hardware e sistema operacional compatíveis com a recepção de rádio FM, para que o recurso não seja desabilitado por software. A portaria, entretanto, não visa obrigar que todos os celulares disponham de hardware e de sistema operacional compatíveis com esse recurso. Notadamente, os iPhones permanecerão sem recepção de rádio FM, por exemplo.

Em relação à recepção do Sistema Brasileiro de TV Digital, tal recurso foi incluído no Processo Produtivo Básico dos celulares produzidos na Zona Franca de Manaus (1% em 2012, 3% em 2013, 10% em 2014, 15% em 2015, 20% em 2016, 40% de 2017 a 2018; de 2014 a 2018, celulares que incorporassem o Ginga contavam em dobro para a cota; de 2012 a 2018, a cota poderia ser cumprida a partir da disponibilização de acessórios externos de recepção de TV Digital; a partir de 2019, a recepção de TV Digital passou a contar 3 pontos e a incorporação do Ginga passou a contar 2 pontos, dentro dos 151 pontos de todas as etapas produtivas possíveis, dos quais o fabricante deve acumular pelo menos 57 pontos para obter o benefício fiscal).

O que os brasileiros podem esperar da TV 3.0? Existe uma lista de recursos obrigatórios que o novo padrão deverá ter?

Não existe uma lista de “recursos obrigatórios” da TV 3.0, mas existe uma lista de requisitos estabelecidos pelo Fórum SBTVD dentro do chamamento público internacional (Call for Proposals) para tecnologias candidatas.

Esses requisitos incluem, entre outros, o reuso do mesmo canal de televisão por estações cobrindo áreas adjacentes com conteúdos distintos (fator de reuso de frequência 1), o transporte baseado em IP (integrando conteúdos transmitidos pelo ar e pela internet), vídeo UHD/HDR, áudio imersivo e personalizável, mais recursos de acessibilidade, um sistema de alerta de emergência e navegação baseada em aplicativos.

O novo padrão vai exigir mais espectro para implementar essas novidades?

O objetivo é utilizar as mesmas faixas de frequência atualmente utilizadas para TV Digital (UHF e VHF), mas será necessário um replanejamento da canalização para acomodar o novo serviço.

A TV3.0 também afeta a TV por assinatura ou apenas a aberta?

O novo padrão não afeta diretamente a TV paga, apenas a TV aberta. Indiretamente, pode fomentar a evolução da TV paga para UHD, de forma similar ao que ocorreu com a introdução da alta definição na TV paga após o início da operação da TV digital.

A implantação do TV 3.0 vai exigir que os usuários comprem ou troquem de aparelhos de recepção?

A recepção de TV 3.0 vai requerer novos receptores, pois se trata de uma nova geração tecnológica, não de uma evolução retrocompatível. Mas a transição tecnológica deve durar vários anos, com introdução gradual da nova tecnologia, tanto do lado da transmissão, quanto do lado da recepção, antes do desligamento da TV Digital atual.

Perfil

Luiz Fausto possui Mestrado Profissional em Computação Aplicada pela UECE (2015), MBA Executivo em Tecnologia da Informação pela UFRJ (2011), curso de extensão em Redes e Vídeo sobre IP pela UFRJ (2009) e graduação em Engenharia Elétrica com ênfase em Eletrônica pela UFRJ/USU (2005). Atualmente é Especialista em Tecnologia e Regulatório da Globo, coordenador do Módulo Técnico do Fórum SBTVD, coordenador do SWG 6B-2 (Multimedia) do ITU-R WP 6B (Broadcast service assembly and access), membro da Delegação do Brasil no ITU-R (SG 6 – Broadcasting Service) e na CITEL (CCP.II – Radiocomunicações), membro do Grupo Técnico de Recepção (GT-Rx) do Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV (GIRED) e coordenador de Harmonização de Hardware do Fórum ISDB-T Internacional.

Com informações de Assessoria de Imprensa Fórum SBTVD.

About Hemerson Brandão
Jornalista, gestor e produtor de conteúdo. São 9 anos trabalhando com blogs, revistas, agências e clientes corporativos. Apaixonado por ciência, tecnologia e exploração espacial.
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