A Amazon pediu formalmente à FCC, regulador americano equivalente à Anatel no Brasil, que rejeite o plano da SpaceX de lançar até 1 milhão de satélites de baixa órbita para operar data centers no espaço. A petição foi protocolada em 6 de março de 2026 pela divisão Amazon Leo, concorrente direta da Starlink no mercado de internet via satélite.
O documento, com 17 páginas, argumenta que a proposta da SpaceX — empresa de Elon Musk — não apresenta os detalhes técnicos exigidos pela regulação americana. Segundo a Amazon, o pedido descreve a constelação como “um primeiro passo em direção a uma civilização de nível Kardashev II”, mas deixa de apresentar informações básicas sobre frequências de rádio, planos orbitais e distribuição dos satélites.
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DADOS INCOMPLETOS E PRAZO IRREAL
A Amazon aponta que a SpaceX forneceu dados técnicos completos para apenas três satélites — o equivalente a 0,0003% da constelação proposta. Sem esses detalhes, afirma a empresa, “nem a FCC nem outros operadores podem avaliar o impacto deste sistema” sobre a segurança orbital e a gestão do espectro eletromagnético.
A inviabilidade prática do projeto é outro argumento central. Em 2025, um ano recorde global de lançamentos, foram colocados 4.526 satélites em órbita no mundo inteiro. Com base nesse ritmo, a Amazon calcula:
- Implantar 1 milhão de satélites levaria mais de 220 anos, mesmo dedicando toda a capacidade global de lançamentos exclusivamente à SpaceX
- Com vida útil estimada de cinco anos por satélite, manter a constelação exigiria substituir cerca de 200.000 unidades por ano
- Esse volume equivale a mais de 44 vezes toda a capacidade de lançamentos global registrada em 2025
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RESERVA DE ÓRBITAS SEM COMPROMISSO REAL
A Amazon alerta que aprovar o pedido sem um plano concreto de implantação criaria um risco regulatório grave para todo o setor. A empresa aponta que a SpaceX também solicitou isenções de regras que normalmente obrigam operadoras a cumprir metas de lançamento e oferecer garantias financeiras.
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“Na melhor das hipóteses, a solicitação parece ser um exercício de publicidade e mensagens — e na pior, uma tentativa de reivindicar prioridade sobre uma vasta faixa de recursos orbitais sem intenção genuína de implantação”, diz o documento protocolado pela Amazon.
Esse cenário forçaria outros operadores de órbita baixa a planejarem suas constelações em torno de um sistema que talvez jamais seja construído, gerando insegurança jurídica e econômica em todo o mercado global de satélites.
IMPACTO NA COMPETIÇÃO E NO MERCADO BRASILEIRO
A disputa tem implicações diretas para o mercado brasileiro e latino-americano. A Amazon Leo pediu mais prazo para lançar seus satélites junto à FCC, mas ainda planeja iniciar sua oferta comercial em 2026, inclusive no Brasil, onde compete diretamente com a Starlink.
Segundo a petição, uma constelação de 1 milhão de satélites da SpaceX geraria impactos diretos sobre toda a concorrência no setor:
- Inviabilizaria missões de operadoras rivais em órbita baixa
- Encareceria seguros aeroespaciais para todos os players do mercado
- Comprometeria a segurança dos lançamentos de terceiros
- Consolidaria o domínio da Starlink no setor espacial global
A Starlink, que recentemente conseguiu autorização para lançar mais 7.500 novos satélites, já conta com mais de 9.000 unidades em órbita e ultrapassa 1 milhão de clientes somente no Brasil, o que reforça a preocupação da Amazon com um eventual monopólio orbital.

SEGURANÇA ORBITAL E DESCARTE DE SATÉLITES
A Amazon também questiona a ausência de um plano claro para o descarte dos satélites ao fim de sua vida útil. A SpaceX menciona três opções no pedido, mas não especifica qual adotará:
| Opção de descarte | Descrição |
|---|---|
| Reentrada atmosférica | Satélite é desacelerado e se desintegra na atmosfera |
| Órbita de cemitério | Satélite é enviado para órbita acima de 2.000 km |
| Órbita heliocêntrica | Satélite é ejetado para órbita ao redor do Sol |
Mesmo com uma taxa de sucesso de 99% no descomissionamento, estima-se que cerca de 10.000 satélites poderiam deixar de ser retirados de órbita de forma segura. O risco de criação de detritos espaciais em larga escala preocupa não só concorrentes, mas também astrônomos e agências espaciais ao redor do mundo.
O QUE A AMAZON PEDE À FCC
Ao final do documento, a Amazon faz duas solicitações ao regulador americano:
- Rejeitar integralmente o pedido da SpaceX por não atender aos requisitos técnicos mínimos exigidos pela regulação americana
- Caso a análise prossiga, exigir informações muito mais detalhadas sobre radiofrequências, distribuição orbital e características dos satélites antes de qualquer decisão
Para a empresa, sem esses dados, “nem a FCC nem outros operadores podem avaliar o impacto deste sistema” — protegendo assim a competição, a segurança orbital e o acesso equitativo ao espaço por diferentes operadores.












