Reprodução/Google Maps

NVIDIA muda abordagem sobre IA no setor de telecom

Cristino Melo
6 min de leitura

A gigante dos chips NVIDIA publicou nesta quinta-feira (19) seu quarto relatório anual sobre o estado da tecnologia no setor de telecom, sinalizando uma mudança de postura ao adotar um discurso mais suave e pragmático sobre a implementação da inteligência artificial (IA). O documento, divulgado globalmente visando o Mobile World Congress (MWC), revela que a empresa agora foca em resultados tangíveis para convencer operadoras que ainda hesitam diante dos altos custos de infraestrutura de hardware.

- Publicidade -

Leia mais:

Uma virada de abordagem

A mudança de postura é perceptível logo na estrutura do relatório. Em edições anteriores, a NVIDIA apostava forte na promoção do conceito de AI-RAN — uma arquitetura que propõe integrar GPUs diretamente às redes de rádio acesso (RAN). Desta vez, o tema praticamente desapareceu do texto principal, reflexo direto da resistência do mercado em adotar soluções que muitos consideram caras e de retorno incerto.

- Publicidade -
nvidia iA telecom relatório
Divulgação/NVIDIA

Em vez disso, o novo relatório mira um panorama mais amplo, destacando casos de uso onde a IA já demonstra retorno claro. A automação de redes passou a ser o principal caso de uso em termos de investimento, implantação e impacto sobre o ROI — superando pela primeira vez a experiência do cliente, que liderava esse ranking nas edições anteriores.

Quer acompanhar tudo em primeira mão sobre o mundo das telecomunicações? Siga o Minha Operadora no Canal no WhatsAppInstagramFacebookX e YouTube e não perca nenhuma atualização, alerta, promoção ou polêmica do setor!

- Publicidade -

O que dizem os números

A pesquisa ouviu 1.038 profissionais do setor entre setembro e novembro de 2025. Os principais resultados apontam para uma adoção crescente e resultados financeiros positivos:

IndicadorResultado
Afirmam que IA aumenta receita e reduz custos90%
Planejam ampliar orçamento de IA em 202689%
Dizem que automação de redes é impulsionada por IA65%
Usam ou avaliam IA generativa (ante 49% em 2024)60%
Consideram código aberto importante para sua estratégia de IA89%
Esperam redes AI-native antes do 6G77%

Entre os que pretendem aumentar os aportes em IA, 35% esperam crescimento superior a 10% no orçamento — um salto expressivo em relação aos 65% que sinalizavam aumento no levantamento do ano anterior.

Automação de redes no centro do debate

A automação de redes emergiu como o caso de uso mais rentável segundo os respondentes. Os três principais usos com maior retorno sobre investimento são:

  • Redes autônomas — citadas por 50% como principal fonte de ROI
  • Atendimento ao cliente — mencionado por 41%
  • Otimização de processos internos — apontado por 33%

Ainda há um longo caminho a percorrer até as redes totalmente autônomas. O TM Forum define uma escala de autonomia de rede que vai do Nível 1 ao Nível 5. Cerca de 88% dos respondentes se posicionam entre os níveis 1 e 3, indicando que a maioria das operadoras ainda está no início ou no meio dessa jornada.

IA generativa e agêntica ganham espaço

O relatório também aponta para a consolidação da IA generativa no setor e o surgimento de uma nova fronteira: a IA agêntica — sistemas capazes de agir de forma autônoma em múltiplos domínios, sem necessidade de intervenção humana em tempo real. Os estágios de adoção no setor se distribuem assim:

- Publicidade -
  • IA generativa: 60% das organizações já usam ou avaliam a tecnologia
  • IA agêntica: 48% das empresas estão usando ou avaliando agentes de IA
  • Agentes já implantados: 23% dos respondentes afirmam ter agentes de IA em produção

Desafios que ainda travam a adoção

Apesar do avanço, o setor enfrenta obstáculos concretos. Os principais desafios identificados pelos respondentes são:

  • Questões relacionadas a dados (privacidade, soberania, silos e complexidade) — citadas por 54%
  • Falta de profissionais qualificados em IA — mencionada por 47%
  • Dificuldade em quantificar o ROI — apontada por 34%

A preferência pelo código aberto também reflete esse cenário: com 89% dos respondentes valorizando modelos e ferramentas abertas, fica evidente que o setor busca flexibilidade e quer evitar dependência excessiva de fornecedores específicos.

Adaptação estratégica da NVIDIA

Para a NVIDIA, o recuo na retórica mais agressiva parece ser uma adaptação estratégica à realidade do setor. As operadoras de telecom operam em um ambiente de baixo crescimento e margens pressionadas, o que exige cautela nos investimentos em tecnologias novas.

O que o novo relatório comunica é uma mensagem de conciliação: a IA já está presente e gerando valor no telecom, os investimentos estão crescendo e as redes autônomas são o horizonte do setor — mas cada avanço acontecerá no ritmo que as operadoras considerarem viável. Se um dia as empresas decidirem adotar GPUs em larga escala nas redes de rádio, a NVIDIA estará pronta. Por enquanto, o foco é mostrar que a tecnologia funciona onde e quando é realmente útil.

Compartilhar este artigo
Se inscrever
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais antigo
Mais recente Mais Votados
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários