A gigante dos chips NVIDIA publicou nesta quinta-feira (19) seu quarto relatório anual sobre o estado da tecnologia no setor de telecom, sinalizando uma mudança de postura ao adotar um discurso mais suave e pragmático sobre a implementação da inteligência artificial (IA). O documento, divulgado globalmente visando o Mobile World Congress (MWC), revela que a empresa agora foca em resultados tangíveis para convencer operadoras que ainda hesitam diante dos altos custos de infraestrutura de hardware.
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Uma virada de abordagem
A mudança de postura é perceptível logo na estrutura do relatório. Em edições anteriores, a NVIDIA apostava forte na promoção do conceito de AI-RAN — uma arquitetura que propõe integrar GPUs diretamente às redes de rádio acesso (RAN). Desta vez, o tema praticamente desapareceu do texto principal, reflexo direto da resistência do mercado em adotar soluções que muitos consideram caras e de retorno incerto.

Em vez disso, o novo relatório mira um panorama mais amplo, destacando casos de uso onde a IA já demonstra retorno claro. A automação de redes passou a ser o principal caso de uso em termos de investimento, implantação e impacto sobre o ROI — superando pela primeira vez a experiência do cliente, que liderava esse ranking nas edições anteriores.
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O que dizem os números
A pesquisa ouviu 1.038 profissionais do setor entre setembro e novembro de 2025. Os principais resultados apontam para uma adoção crescente e resultados financeiros positivos:
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Afirmam que IA aumenta receita e reduz custos | 90% |
| Planejam ampliar orçamento de IA em 2026 | 89% |
| Dizem que automação de redes é impulsionada por IA | 65% |
| Usam ou avaliam IA generativa (ante 49% em 2024) | 60% |
| Consideram código aberto importante para sua estratégia de IA | 89% |
| Esperam redes AI-native antes do 6G | 77% |
Entre os que pretendem aumentar os aportes em IA, 35% esperam crescimento superior a 10% no orçamento — um salto expressivo em relação aos 65% que sinalizavam aumento no levantamento do ano anterior.
Automação de redes no centro do debate
A automação de redes emergiu como o caso de uso mais rentável segundo os respondentes. Os três principais usos com maior retorno sobre investimento são:
- Redes autônomas — citadas por 50% como principal fonte de ROI
- Atendimento ao cliente — mencionado por 41%
- Otimização de processos internos — apontado por 33%
Ainda há um longo caminho a percorrer até as redes totalmente autônomas. O TM Forum define uma escala de autonomia de rede que vai do Nível 1 ao Nível 5. Cerca de 88% dos respondentes se posicionam entre os níveis 1 e 3, indicando que a maioria das operadoras ainda está no início ou no meio dessa jornada.
IA generativa e agêntica ganham espaço
O relatório também aponta para a consolidação da IA generativa no setor e o surgimento de uma nova fronteira: a IA agêntica — sistemas capazes de agir de forma autônoma em múltiplos domínios, sem necessidade de intervenção humana em tempo real. Os estágios de adoção no setor se distribuem assim:
- IA generativa: 60% das organizações já usam ou avaliam a tecnologia
- IA agêntica: 48% das empresas estão usando ou avaliando agentes de IA
- Agentes já implantados: 23% dos respondentes afirmam ter agentes de IA em produção
Desafios que ainda travam a adoção
Apesar do avanço, o setor enfrenta obstáculos concretos. Os principais desafios identificados pelos respondentes são:
- Questões relacionadas a dados (privacidade, soberania, silos e complexidade) — citadas por 54%
- Falta de profissionais qualificados em IA — mencionada por 47%
- Dificuldade em quantificar o ROI — apontada por 34%
A preferência pelo código aberto também reflete esse cenário: com 89% dos respondentes valorizando modelos e ferramentas abertas, fica evidente que o setor busca flexibilidade e quer evitar dependência excessiva de fornecedores específicos.
Adaptação estratégica da NVIDIA
Para a NVIDIA, o recuo na retórica mais agressiva parece ser uma adaptação estratégica à realidade do setor. As operadoras de telecom operam em um ambiente de baixo crescimento e margens pressionadas, o que exige cautela nos investimentos em tecnologias novas.
O que o novo relatório comunica é uma mensagem de conciliação: a IA já está presente e gerando valor no telecom, os investimentos estão crescendo e as redes autônomas são o horizonte do setor — mas cada avanço acontecerá no ritmo que as operadoras considerarem viável. Se um dia as empresas decidirem adotar GPUs em larga escala nas redes de rádio, a NVIDIA estará pronta. Por enquanto, o foco é mostrar que a tecnologia funciona onde e quando é realmente útil.












