Bancos de investimento já começaram a se posicionar para uma eventual venda da TIM Brasil, mesmo sem que o ativo tenha sido colocado oficialmente no mercado. O movimento acompanha a chegada da estatal Poste Italiane ao comando da Telecom Italia, controladora da terceira maior operadora móvel do país, por meio de uma oferta de aquisição e permuta de ações. Por enquanto, o governo italiano não decidiu se vai se desfazer da subsidiária brasileira.
A informação foi apurada pelo jornal Valor Econômico com interlocutores do setor. O apetite do mercado ganhou força depois que Matteo Del Fante, presidente-executivo da Poste Italiane, declarou em uma conferência econômica em Roma, na terça-feira passada (27), que a operação brasileira é lucrativa, mas não essencial aos planos do grupo. Ele, porém, negou que a empresa esteja à venda.
Leia mais:
- Setor de telecom brasileiro já recebeu US$ 5,6 bi do exterior em 2026
- TIM aprova incorporação da I-Systems para unificar fibra
- Operadora alemã é a empresa mais valiosa da Europa em 2026
O PESO DA TIM BRASIL PARA OS ITALIANOS
Abrir mão da TIM Brasil não seria uma decisão simples para os italianos. A operadora gera caixa e responde por quase metade do Ebitda do grupo, sigla que mede o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização. A Telecom Italia possui cerca de 68% da companhia, fatia que vale aproximadamente R$ 31 bilhões quando considerado o valor de mercado de R$ 45,6 bilhões no fechamento de sexta-feira (30).
Esse número, no entanto, serve apenas como referência. Em uma negociação real, o preço dependeria das condições acertadas entre as partes e de um eventual prêmio pelo controle. Hoje, a Poste Italiane detém cerca de 86,95% da Telecom Italia, patamar alcançado com a oferta pública somada a compras de ações no mercado, segundo comunicado da TIM Brasil à CVM. Procurada, a operadora preferiu não se manifestar.

PRIORIDADE DA POSTE ESTÁ NA ITÁLIA
A estratégia que motivou a compra da Telecom Italia está voltada ao mercado doméstico. A Poste quer ampliar sua atuação em serviços digitais na Itália, aproveitando a carteira de clientes corporativos da tele. Foi nesse contexto que Del Fante afirmou que a TIM Brasil não é estratégica, acrescentando que pretende tratar a operação de forma “tática” nos próximos meses, sem explicar o que isso significaria.
Uma resposta mais clara deve vir com o plano de negócios do grupo combinado, previsto para o primeiro trimestre de 2027. Enquanto o documento não sai, analistas tentam decifrar a fala do executivo. Para Leonardo Olmos e Gustavo Farias, do UBS BB, a declaração “pode abranger uma série de desdobramentos para um ativo lucrativo e não essencial”, conforme relatório divulgado em 28 de outubro.
O QUE PODE ACONTECER COM A OPERADORA
Na avaliação de Olmos, a tendência imediata não é a venda. Em entrevista, ele relatou o que vem ouvindo de investidores brasileiros e estrangeiros: “No curto prazo, o mais provável […] é ela emitir [dívida para pagar] um dividendo extraordinário e aumentar a alavancagem”. Os cenários mapeados pelo analista e pelo relatório do banco podem ser organizados da seguinte forma:
- Curto prazo: emissão de dívida para pagar um dividendo extraordinário, com uma estrutura de capital mais alavancada na TIM Brasil
- Médio e longo prazo: venda da operadora ou venda combinada com uma fusão com empresa ou grupo de banda larga
- Outras hipóteses do relatório: monetização parcial da participação ou combinação estratégica
Conteúdo sobre banda larga, telefonia móvel e streaming em um só lugar. Siga o Minha Operadora nas redes sociais e receba notícias atualizadas diariamente: curta no Facebook, siga no Instagram, inscreva-se no YouTube e fique conectado pelo X (Twitter).
QUEM TERIA FÔLEGO PARA COMPRAR
Entre os nomes citados por fontes do setor, a V.tal aparece como uma das candidatas mais prováveis, ainda que não exista proposta ou negociação. Controlada por fundos geridos pelo BTG Pactual, a empresa tem rede de fibra que passa por mais de 22 milhões de residências, montada a partir da infraestrutura óptica da Oi. Ela também é dona da Nio, nome dado à antiga base de banda larga fixa da Oi, além de cabos submarinos e redes de transporte de dados.
No papel, a combinação faz sentido. A V.tal ganharia uma operação móvel nacional para somar à fibra e poderia oferecer pacotes integrados. Os obstáculos, porém, incluem financiamento, acerto sobre preço, controle e governança, além do efeito sobre seu papel de fornecedora de infraestrutura para outras operadoras. Procurada, a V.tal disse que está sempre atenta a oportunidades, mas que não há conversas sobre o tema.
CONCORRÊNCIA LIMITA VIVO E CLARO
As líderes do mercado teriam dificuldade para entrar na disputa. Pelos dados de agosto compilados pela consultoria Teleco, a soma da TIM Brasil a qualquer uma delas resultaria em uma empresa com mais de 50% da telefonia celular, reduzindo de três para dois os grandes grupos nacionais. Esse quadro tende a favorecer interessados que preservem a TIM como concorrente independente. Veja a comparação:
| Empresa | Fatia na telefonia móvel (agosto) | Principal barreira |
|---|---|---|
| TIM Brasil (alvo) | 22% | Não se aplica |
| V.tal | Sem operação móvel | Financiamento, avaliação e governança |
| Vivo | 37,8% | Fatia combinada acima de 50% |
| Claro | 33% | Fatia combinada acima de 50% |
O Cade já mostrou cautela com o setor. Em 2022, ao analisar a divisão da operação móvel da Oi entre TIM, Vivo e Claro, o conselho só aprovou o negócio com voto de qualidade da presidência, depois de empate entre os conselheiros, e impôs a venda de parte das estações rádio-base e obrigações no atacado. Na época, o órgão já via concentração elevada com a saída de uma das quatro grandes. Antes disso, em 2019, a Claro havia comprado a Nextel.












