16/01/2026

Essa praia nordestina “recepciona” 90% da internet que chega ao Brasil

Pouca gente sabe, mas um ponto específico do litoral brasileiro, mais especificamente no nordeste, é a principal porta de entrada de dados da internet vinda do exterior.

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Imagem: Getty Images/iStockphoto/Reprodução

Em meio ao vaivém das ondas e ao cenário turístico que atrai milhares de visitantes todos os anos, um trecho do litoral brasileiro guarda uma importância estratégica que escapa aos olhos da maioria. É ali, num espaço de poucos quilômetros, que chega quase todo o fluxo de dados que conecta o país ao resto do mundo.

Quase 90% da internet internacional que circula no Brasil entra por esse ponto. Não, não estamos falando de antenas, satélites ou sinais pelo ar. 

A conexão vem por baixo do mar, por cabos de internet submarinos que se estendem por milhares de quilômetros até alcançar o continente.

Você sabe de que lugar estamos falando? Trata-se da Praia do Futuro, em Fortaleza, capital do Ceará.

Cabos invisíveis, mas indispensáveis

Apesar de vivermos imersos em conexões móveis e redes sem fio, a base que sustenta a internet global ainda depende fortemente de fios e longos. 

São os cabos submarinos de fibra óptica, como os que aportam na Praia do Futuro, que transportam a maior parte das informações entre países e continentes.

Estes cabos cruzam os oceanos silenciosamente, ligando grandes centros de dados, onde empresas como Google, Meta e Amazon armazenam suas informações. 

Dados da União Europeia e da Anatel indicam que mais de 97% da comunicação digital entre continentes depende dessa infraestrutura física. O uso de satélites, embora importante em áreas remotas, ainda representa uma fatia muito menor.

Imagem: TeleGeography /BBC News Brasil/Reprodução

A geografia como aliada

A Praia do Futuro, que agora desponta como protagonista da conectividade brasileira, foi escolhida não por acaso. A proximidade com outros continentes, como Europa, América do Norte e África, foi um dos primeiros atrativos. 

Mas outros elementos contaram: um fundo oceânico estável, pouco movimento urbano no entorno, e espaço suficiente para construção de infraestrutura técnica.

Essas condições favoreceram a instalação de uma série de cabos de internet no trecho. Hoje, são 16 linhas submarinas ancoradas ali, o maior número da América Latina. Essa concentração coloca o Brasil, e especificamente esse ponto do litoral cearense, no radar das principais rotas de dados do planeta.

Crescimento e investimento

Com tantos cabos chegando por ali, era natural que a infraestrutura ao redor também se desenvolvesse. Hoje, existem diversos data centers de grande porte na região, todos projetados para lidar com alto volume de tráfego, com padrões de segurança internacionais. Os ambientes são controlados, blindados contra falhas de energia e até alterações climáticas.

E tem mais por vir. Há projetos de expansão em andamento, com cifras que passam dos R$ 2 bilhões em investimentos. Um deles, previsto para a área portuária próxima, deve abrigar um dos maiores centros de dados do país um empreendimento que já chama atenção de grandes players da tecnologia, incluindo uma gigante do setor de vídeos curtos, que preferiu não confirmar oficialmente o interesse.

Por que isso importa para o usuário comum?

É simples: quanto mais perto os cabos e centros de dados estiverem dos usuários, melhor o desempenho dos serviços online. Quando você clica em um vídeo, uma música ou acessa um arquivo na nuvem, essa informação precisa viajar de algum lugar até o seu dispositivo. 

Se o conteúdo está armazenado no Brasil, esse caminho é mais curto. Mas se está fora, ele primeiro precisa atravessar o oceano por um desses cabos.

Fortaleza, cidade que abriga esse ponto estratégico, vem se destacando justamente por permitir essa conexão mais direta e rápida com servidores internacionais. O resultado? Menos tempo de espera para carregar um conteúdo, menor latência e melhor experiência de navegação.

Imagem: Shutterstock/Reprodução

Uma estrutura complexa e vulnerável

Mesmo com toda essa sofisticação, os cabos submarinos não estão livres de riscos. Em águas rasas, mergulhadores especializados conseguem fazer reparos. Em áreas mais profundas, o processo é delicado: às vezes é preciso trazer o cabo à superfície ou usar robôs para realizar a manutenção. 

E há ainda preocupações geopolíticas: alguns cabos no mundo foram danificados nos últimos anos, sob suspeitas de sabotagem.

No caso brasileiro, o sistema interno de troca de tráfego ajuda a minimizar possíveis impactos. Cerca de 70% a 80% dos dados consumidos pelos brasileiros já circulam dentro do país, o que reduz a dependência dos links internacionais em muitos casos.

Uma nova posição no mapa digital

O Brasil tem ganhado destaque como um dos polos emergentes de conectividade global. E esse pequeno trecho de litoral nordestino, que muitos conhecem apenas como destino turístico, está no centro dessa transformação.

A internet pode parecer invisível, mas seu caminho é bem real e passa por fios longos, silenciosos, instalados sob o mar. No Brasil, eles quase sempre chegam pelo mesmo lugar: a Praia do Futuro. E é exatamente isso que está mudando o mapa da informação no país.

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