O plano da SpaceX de montar uma rede de celular apoiada em pequenas antenas terrestres ganhou mais um crítico de peso no setor. John Stankey, presidente do conselho e CEO da AT&T, afirmou na última quarta-feira (9), durante a conferência Goldman Sachs Communacopia + Technology, nos Estados Unidos, que esse desenho não dá conta das exigências de uma operadora móvel de verdade.
O executivo respondia a uma pergunta sobre o avanço da conectividade via satélite, tratada ao mesmo tempo como concorrente e como complemento das redes terrestres. Stankey não citou SpaceX nem Starlink pelo nome, mas o alvo ficou evidente diante do projeto que a empresa vem apresentando ao mercado norte-americano e que já divide opiniões entre operadoras e analistas.
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CRÍTICA ÀS FEMTOCÉLULAS
A SpaceX defende a construção de uma rede móvel terrestre formada por um grande número de pequenas células, que a companhia chama de femtocélulas. A proposta já vinha acumulando resistência entre operadoras e especialistas, e a fala de Stankey reforça esse coro. Para ele, o problema não está apenas no tamanho dos equipamentos, mas na lógica de distribuição desses pontos pelo território.
“A ideia de que você pode simplesmente atender mobilidade a partir de fora não é como as redes estão arquitetadas hoje”, disse o executivo. Ele completou afirmando que a noção de que células muito pequenas, implantadas de forma aleatória, resolveriam esse problema também não se sustenta na prática diária de uma operadora móvel de grande porte como a AT&T.
O argumento acompanha uma crítica que Stankey e outros executivos já vinham fazendo. Uma rede móvel robusta depende de uma combinação de faixas de espectro, com capacidade em baixas e médias frequências, para equilibrar velocidade e alcance. Sem esse mix, fica comprometida também a penetração do sinal dentro de edifícios, um dos pontos mais sensíveis para quem usa o celular em ambientes fechados.

D2D COBRE APENAS UMA LACUNA
Mesmo assim, o CEO fez questão de dizer que não subestima o satélite como concorrente. Segundo ele, haverá espaços em que a tecnologia vai inovar e casos de uso nos quais será muito bem aproveitada. O ponto da AT&T é outro, já que, como tecnologia direct-to-device, o satélite cobre uma fatia pequena do problema para uma operadora que, pelas contas do próprio executivo, já alcança 98% do país com cobertura móvel.
Nas palavras dele, a missão da companhia é encontrar os 2% restantes e usar o satélite para fechar essas falhas de cobertura. É essa lógica que explica os movimentos recentes da operadora nos Estados Unidos, que optou por não depender de uma única constelação e vem costurando acordos em paralelo. Veja abaixo como a empresa se posicionou nesse mercado.
- Criação de uma joint venture de direct-to-device com T-Mobile e Verizon, que deve comprar acesso em volume a mais de uma constelação e reduzir o preço final
- Parceria já em curso com a AST SpaceMobile para conectividade direta ao celular
- Acordo com a Amazon Leo para levar conectividade a clientes corporativos
O executivo também enxerga o satélite como peça de convergência, somado à fibra e ao acesso móvel terrestre para entregar o que chamou de conectividade sempre ativa. Nesse arranjo, a operadora segue como dona da relação com o cliente, administrando a experiência de uso e a cobrança, enquanto o satélite atua nos bastidores para evitar quedas de sinal.
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CONVERGÊNCIA AINDA ESTÁ NO COMEÇO
Para Stankey, a convergência ainda engatinha e hoje se resume, em boa parte, a pacotes e combos que entregam desconto. O futuro, na visão dele, vai bem além disso, com serviços via satélite entrando nos pacotes em breve. “Não é apenas um desconto, é um produto que funciona melhor para o cliente”, afirmou, ao descrever o valor de uma conexão constante e previsível.
Os primeiros resultados já aparecem. A AT&T registra taxa de convergência de 45% entre móvel e banda larga nos mercados atendidos por sua fibra. Nas áreas recém-adquiridas da Lumen, onde a empresa agora foca em anexar o serviço móvel à banda larga residencial, as adições brutas de clientes convergentes cresceram 50%, um indicador de que a estratégia de vender celular a partir da fibra está funcionando.
O QUE MUDA PARA O BRASIL
O debate interessa diretamente ao mercado brasileiro, onde Vivo, Claro e TIM também apostam na convergência entre fibra e móvel e acompanham de perto a chegada do direct-to-device. Aqui, a Starlink já opera com autorização da Anatel, mas uma recomendação do Ministério da Fazenda pode atrasar a liberação do serviço direto ao celular no país, o que adia a disputa direta com as operadoras terrestres.
Enquanto isso, os primeiros sinais da tecnologia já aparecem por aqui. A Algar Telecom colocou a parceria com a Starlink e o serviço de nuvem entre suas prioridades, enquanto usuários relataram que a rede Vivo Starlink surgiu em celulares no Brasil, movimento que reforça a leitura do satélite como complemento de cobertura, e não como substituto da rede terrestre.












