O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, ordenou o restabelecimento da internet internacional no país após 87 dias de bloqueio severo, em decisão confirmada pela mídia estatal iraniana na segunda-feira (25). O apagão afetou o acesso a plataformas globais, e até mesmo a Starlink foi alvo de interferência deliberada por equipamentos do governo iraniano.
A ordem foi confirmada pelo chefe de relações públicas do Ministério das Comunicações do Irã. Até o momento, o regime não divulgou prazo oficial para a reconexão total nem os mecanismos técnicos que serão utilizados para restabelecer o sinal global, segundo a Reuters.
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COMO COMEÇOU O BLOQUEIO
O corte do acesso à internet começou em 8 de janeiro, em resposta a protestos antigoverno que tomaram diversas regiões do país desde o fim de dezembro. Segundo o observatório NetBlocks, a conectividade caiu para cerca de 1% do padrão normal em um país com aproximadamente 90 milhões de habitantes.
Em fevereiro, o serviço apresentou uma breve normalização, mas um novo bloqueio total foi decretado em 28 de fevereiro, coincidindo com ataques militares dos Estados Unidos e de Israel contra alvos em território iraniano. O governo defendeu a censura como necessidade estratégica de segurança nacional.
As justificativas oficiais do regime foram:
- Forças israelenses teriam usado sinais de telefonia celular para localizar e eliminar líderes militares nos primeiros dias do conflito
- A internet e as redes sociais estariam sendo operadas por potências estrangeiras para incitar uma tentativa de golpe de Estado
- O bloqueio seria uma medida temporária de proteção à soberania nacional

IMPACTO NA POPULAÇÃO E NAS TELECOMUNICAÇÕES
Para o cidadão iraniano comum, o bloqueio transformou tarefas cotidianas em impossibilidades: usar mapas, acessar sites internacionais ou se comunicar com familiares no exterior tornaram-se ações inviáveis. O bloqueio também dificultou a organização de protestos e restringiu a circulação de informações independentes, favorecendo a disseminação de narrativas pró-governo.
Relatos da agência Deutsche Welle mostraram que chamadas para celulares e telefones fixos no Irã mal conseguiam ser completadas durante o apagão. Enquanto isso, o governo intensificou a migração de serviços para uma intranet nacional, mantendo funcionando apenas plataformas de comércio eletrônico, sites governamentais e o currículo escolar on-line.
A chamada “internet paralela” oferecia acesso restrito ao seguinte:
| O que funcionava | O que estava bloqueado |
|---|---|
| Aplicativos de mensagens locais | WhatsApp e Instagram |
| Mecanismos de busca autorizados | Google e plataformas internacionais |
| Veículos de notícia do regime | Imprensa independente e estrangeira |
| Serviços de governo eletrônico | Redes sociais globais |
| Comércio eletrônico interno | Sites e serviços internacionais |
STARLINK E AS TÉCNICAS DE BLOQUEIO DIGITAL
Mesmo a Starlink, usada em países com censura para contornar restrições, foi parcialmente neutralizada no Irã. Segundo Amir Rashidi, diretor da organização Miaan Group, o governo posicionou jammers próximos às antenas do serviço para bloquear seu funcionamento. A Proton VPN também relatou queda abrupta nas conexões oriundas do país no período.
Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, explicou que bloquear a internet via satélite é mais complexo porque as empresas responsáveis pelo serviço operam sem infraestrutura física dentro do país. A solução encontrada pelo governo iraniano foi investir em técnicas de jamming para embaralhar os sinais trocados entre satélites e as antenas dos usuários no solo.
Especialistas alertam que, em contextos de conflito, esse tipo de apagão pode impedir que civis recebam alertas de evacuação e avisos de segurança em tempo real, agravando os riscos à população em zonas de tensão.
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HISTÓRICO DE APAGÕES NO IRÃ
Este foi o terceiro bloqueio geral de internet promovido pelo regime iraniano. O padrão se repete: em momentos de tensão política, militar ou social, o governo recorre ao corte da rede como ferramenta de controle da narrativa e contenção de manifestações, prática criticada por organizações internacionais de direitos digitais.
Os três grandes apagões digitais do país foram:
- 2019 – Protestos contra o aumento do preço dos combustíveis levaram ao primeiro bloqueio geral registrado no país
- 2022 – Morte de Mahsa Amini, presa por supostamente usar o véu islâmico de forma inadequada, motivou novo corte
- 2025-2026 – Combinação de protestos antigoverno e conflito militar com EUA e Israel gerou o apagão mais longo da história: 87 dias
Apesar das restrições, parte da população recorreu a VPNs avançadas e à plataforma Psiphon para burlar a censura. No entanto, a alta nos preços desses serviços criou uma barreira financeira que deixou cidadãos de menor renda restritos à intranet controlada por Teerã.












