Fré Sonneveld/Unsplash

Setor elétrico quer que Anatel cancele leilão do 450 MHz

Cristino Melo
5 min de leitura
Rede de transmissão de energia
Fré Sonneveld/Unsplash

Representantes de sete das maiores concessionárias de energia do país (Neoenergia, Copel, Cemig, CPFL, Axia, EDP e Equatorial) e a UTCAL se reuniram com o presidente da Anatel, Carlos Baigorri, em Brasília, no dia 20 de janeiro. O grupo solicitou formalmente que a agência desista de leiloar a faixa de 450 MHz para serviços móveis, alegando riscos a operações críticas de infraestrutura nacional.

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Dymitr Wajsman, presidente da UTCAL América Latina, expressou profunda preocupação com a coexistência de sinais comerciais e industriais na mesma frequência. Segundo o executivo, a entrada de sistemas comerciais de SMP (Serviço Móvel Pessoal) pode gerar interferências prejudiciais nas redes de missão crítica que já operam nessa faixa.

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Projetos e investimentos sob ameaça

O cenário de incerteza gerado pelo cronograma de licitações da agência afeta diretamente o planejamento financeiro das empresas. O setor elétrico estima que milhões de reais já foram empenhados na construção de uma infraestrutura robusta. Veja abaixo o volume de recursos envolvidos nos principais projetos de redes privativas que utilizam a frequência pretendida pelo órgão regulador:

EmpresaStatus do Projeto em 450 MHzInvestimento Estimado
CopelImplementação (piloto no Paraná)R$ 15 milhões
Cemig e CPFLFase final de processo licitatórioR$ 200 milhões
Setor Geral9 projetos previstos (próximos 2 anos)R$ 300 milhões

A insegurança regulatória já provocou efeitos práticos no mercado de infraestrutura. Fontes do setor indicam que as licitações da Cemig e da CPFL foram temporariamente paralisadas enquanto as empresas aguardam definições claras. Embora a Cemig tenha decidido retomar os trabalhos recentemente, a dúvida ainda paira sobre fornecedores como a Huawei, que é apontada como a provável vencedora para o fornecimento da tecnologia 4G nessas redes.

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Argumentos técnicos e alternativas

A UTCAL defende que as metas de cobertura de rodovias federais, previstas no leilão de 5G, poderiam ser plenamente atendidas utilizando a faixa de 700 MHz, que já possui um ecossistema de equipamentos consolidado no Brasil. A entidade ressalta que não houve menção ao leilão dessa frequência específica no Plano de Uso do Espectro de Radiofrequências 2025-2032, publicado em outubro de 2025, o que reforça o argumento de surpresa.

As empresas listam falhas no processo administrativo que levou à inclusão da faixa no calendário. Entre os pontos destacados estão a ausência de consulta pública específica para a destinação e a falta de uma análise de impacto regulatório profunda. Para as elétricas, a Resolução 785/2025 contraria o próprio Plano de Atribuição, Destinação e Distribuição de Faixas de Frequências (PDFF) aprovado anteriormente pela agência em janeiro de 2025.

Contudo, a recepção na Anatel foi marcada por um posicionamento firme da presidência quanto à natureza jurídica das licenças. Carlos Baigorri lembrou que as redes atuais operam em caráter secundário e utilizou uma analogia contundente sobre a situação ao afirmar que seria como construir uma casa em terreno que não é seu. Sob a ótica do regulador, o espectro é um bem público que precisa ser licitado para o uso primário visando eficiência.

Possíveis saídas para o impasse

Uma das alternativas discutidas durante a reunião foi a possibilidade de as elétricas participarem do processo para adquirir licenças em caráter primário. Para que isso seja viável, as licenças precisariam ser agrupadas regionalmente e ter valores reduzidos, o que dependeria de uma política pública coordenada entre o Ministério das Comunicações e o Ministério de Minas e Energia, garantindo que o custo final não inviabilize os projetos.

O sucesso das redes celulares privativas (RCPs) é visto como um pilar para a modernização da infraestrutura brasileira. Com tecnologias 4G/LTE, as utilities buscam integrar serviços de automação e medição inteligente (smart metering) em uma única infraestrutura resiliente. A proteção dessas redes contra interferências comerciais é considerada vital pela UTCAL para evitar falhas sistêmicas que poderiam afetar diretamente o fornecimento de energia.

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