A Telecomunicação a favor da Educação

Por muito tempo, o celular foi visto como um inimigo das salas de aula. É comum os professores mandarem os alunos desligarem os aparelhos durante as classes. Em alguns colégios, os terminais são retidos e devolvidos apenas ao final do dia. Agora, o setor de educação começa a fazer as pazes com a tecnologia e aprende a usá-la como sua aliada. Dispositivos móveis, como celulares e tablets, estão sendo integrados aos projetos pedagógicos de colégios, centros universitários e cursos de língua Brasil afora. Além de despertarem um maior interesse dos estudantes pelas aulas, as iniciativas proporcionam uma economia em impressões e visibilidade de marca para as instituições que largaram na frente.
Há quatro anos, as escolas da rede SEB COC no estado de São Paulo adotaram netbooks nas salas de aula do ensino fundamental e do ensino médio. Este ano começou a substituição para tablets, a pedido dos próprios estudantes. Três mil unidades foram distribuídas a alunos do primeiro ano do ensino médio. “Estamos trabalhando mais próximos da linguagem dos estudantes, que são nativos digitais. E o professor atinge com mais facilidade um número maior de alunos. Já percebemos que as notas melhoraram ao longo desses quatro anos”, relata o gerente pedagógico de tecnologia do grupo SEB COC, Adriano Polido. Houve também uma redução de problemas de disciplina.
O conteúdo didático embarcado nos tablets usados pelo SEB COC foi desenvolvido pela editora Pearson Brasil. “Não se trata de uma mera transposição do material impresso para PDF. A linguagem tem que ser diferente. O processo de ensino deixa de ser linear. No digital, o aprendizado é feito por múltiplos caminhos”, explica o diretor de mídias digitais da Pearson Brasil, Tadeu Terra. Os professores receberam treinamento especial para lidar com a nova ferramenta.
Além do conteúdo didático em formato multimídia, com a inclusão de vídeos, jogos e links externos, o aplicativo instalado nos tablets dos alunos permite a realização de exercícios. Entretanto, o material impresso e o caderno pautado não foram abandonados. Segundo as fontes, existe uma pressão dos pais para que essa substituição não aconteça tão rapidamente. Na opinião de Terra, da Pearson, seria necessária uma mudança cultural na cabeça dos pais para que isso acontecesse. O mais provável é que a substituição definitiva do impresso ocorra apenas na geração dos filhos dos nativos digitais, prevê o executivo.
Outra questão delicada é sobre o uso do tablet fora da sala de aula. Cabe a cada escola decidir se o aparelho pode ser levado para casa ou não. No caso da SEB COC, o aluno pode levá-lo para casa e é estimulado a fazer tarefas nele. A instalação de aplicativos de terceiros é permitida pela configuração do terminal, um Archos de 10 polegadas com Android 2.2 e sem 3G. As escolas do grupo são dotadas de rede Wi-Fi com acesso bloqueado a sites inapropriados. “Hoje as crianças utilizam essa tecnologia como muitos adultos não o fazem. Qualquer restrição, se houver, deve ser refletida em suas razões e consequências”, comenta Mírian Zippin, professora de pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
O mercado de conteúdo didático digital para escolas está despertando o interesse de diversas editoras. Além da Pearson, a Abril Educação aposta nesse filão. A empresa, dona das editoras Ática e Scipione, além dos sistemas de ensino Anglo e pH, concluiu este ano o desenvolvimento da APIS, uma coleção de e-books multimídia para o curso de todas as disciplinas do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental, pronta para funcionar em tablets Android e iPads. “Repensamos o formato do conteúdo. Incluímos vídeos, animações e até infográficos de revistas da editora Abril”, relata a diretora de tecnologia da Abril Educação, Ana Teresa Ralston. A coleção está sendo apresentada a escolas particulares de todo o Brasil.
Existe grande expectativa do mercado editorial quanto à adoção de conteúdo didático em formato digital pelo Ministério da Educação (MEC). O governo federal é hoje o maior comprador de livros didáticos do Brasil, adquirindo algumas dezenas de milhões de exemplares por ano. A previsão é de que o edital do MEC para 2014 abra espaço para mídias digitais.
Ensino superior
Se nas escolas a adoção dos tablets funciona como um atrativo a mais para as crianças prestarem atenção nas aulas, nas universidades o objetivo é outro. No ensino superior, o contato com essa tecnologia é visto como uma preparação do estudante para o ingresso no mercado de trabalho. “Focamos em empregabilidade. Nossos alunos daqui a quatro anos terão o conhecimento dessa tecnologia, saberão usar essa ferramenta”, comenta Pedro Graça, diretor de marketing do Estácio, grupo de universidades privadas que distribuiu neste segundo semestre 5,5 mil tablets para estudantes de Direito, Hotelaria e Gastronomia. O aparelho é entregue em regime de comodato: após a graduação, fica com o estudante. Se largar o curso antes, precisa devolvê-lo. Foi embarcado um aplicativo com todo o conteúdo didático do semestre. A cada novo período na faculdade, o aluno precisa atualizar o conteúdo. O aplicativo permite ao estudante tomar notas das aulas no próprio tablet. Em uma segunda etapa, serão adicionadas ferramentas para compartilhamento dessas anotações. Assim, será possível trocá-las com professores e com alunos de outras unidades da faculdade. Os estudantes também poderão marcar aqueles comentários que consideram melhores, tal como o botão “curtir” do Facebook. “A troca de anotações de aula por meio eletrônico será uma revolução. Ninguém usa isso para estudo ainda”, comenta Graça.
No caso da Estácio, os tablets estão substituindo totalmente as apostilas impressas, o que gera uma economia para a instituição. Calcula-se que nesse primeiro ano de adoção da nova tecnologia o grupo deixará de imprimir 6 milhões de páginas. Em cinco anos, com a expansão do projeto para todos os 240 mil alunos da Estácio, estima-se que 240 milhões de páginas deixarão de ser impressas por ano. O mercado de cópias ilegais também é afetado. Pelo direito de incluir trechos de livros em suas apostilas digitais, a Estácio firmou um acordo com a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR).
Cursos de ensino superior à distância também aderiram à novidade. O Uniseb Interativo entregou 15 mil tablets para os estudantes que se matricularam neste segundo semestre em qualquer um dos seus 145 pólos de ensino. No seu caso, porém, optou-se por continuar enviando paralelamente o material impresso. “Nossos alunos têm entre 25 e 40 anos de idade. Não são nativos digitais. Para não causar um choque grande, decidimos trabalhar com três mídias: web, tablet e impresso. A substituição das apostilas impressas deve acontecer apenas em 2012”, justifica o pró-reitor do Uniseb Interativo, Jeferson Fagundes. O material didático foi todo digitalizado. Contudo, por exigência do MEC, os alunos seguem obrigados a comparecer pelo menos uma vez por semana a um pólo de ensino onde assistem à transmissão de aulas em vídeo e realizam as provas. No ano que vem, quando o Uniseb Interativo pretende entregar 20 mil tablets a seus estudantes, será incluído acesso a podcasts de aulas e vídeos de correções de provas.
A aposta no uso de tablets é tão grande que o grupo SEB COC, dono do Uniseb Interativo, cogita a possibilidade de montar por conta própria o produto no Brasil, importando componentes da China. O objetivo seria atender sua demanda interna e, eventualmente, tornar-se um fornecedor de tablets com conteúdo didático para o setor público. Inglês, Enem e concursos públicos
Tablets são produtos ainda caros para o bolso de muitos brasileiros. As experiências de educação móvel usando esses aparelhos no País envolvem, em geral, instituições privadas de ensino, em que o preço do tablet está embutido parcelado nas mensalidades pagas pelos estudantes. Para projetos de m-learning (mobile learning) atingirem um público maior, é preciso usar dispositivos móveis mais populares, ou pelo menos ferramentas acessíveis por eles, como mensagens de texto e portais de voz. Esse foi o caminho escolhido pela empresa La-Mark, que criou um curso de inglês e espanhol para celular, o Kantoo, usado hoje por 4,5 milhões de pessoas no mundo, sendo cerca de 3 milhões somente no Brasil, onde é oferecido com exclusividade para assinantes da Vivo. “Montamos um dream team multidisciplinar com gente de áreas como pedagogia e linguística, que construiu uma plataforma de aprendizagem para curtos espaços de tempo e acesso em telas pequenas”, relata a CEO da La-Mark para América Latina, Rocio Del Campo. É a telecomunicação a favor de um melhor aprendizado!

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