A chegada do sinal da Starlink direto no celular promete destravar ganhos de produtividade para o agronegócio brasileiro, sobretudo em regiões de relevo acidentado e áreas remotas. Conhecida pela sigla D2D (Direct-to-Device), a conexão entre satélites e aparelhos comuns se aproxima de virar realidade no país com o avanço de testes e da implementação regulatória. Especialistas do Espírito Santo avaliaram o impacto da novidade em entrevista ao portal ES Brasil.
O interesse do campo tem explicação: hoje, mais de 70% das propriedades rurais enfrentam restrições de conectividade, segundo a associação ConectarAGRO. Com o D2D, o celular passa a se comunicar diretamente com o satélite, sem depender de antenas terrestres de 4G e 5G. Para quem produz longe dos centros urbanos, a expectativa é ganhar comunicação básica, reduzir custos e tomar decisões mais rápidas.
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O QUE O D2D PODE MUDAR NO CAMPO
- Monitoramento em tempo real de propriedades e da produção
- Telemetria e sensores avançados em máquinas e rebanhos
- Gestão pecuária mais eficiente, com rastreamento de animais
- Comunicação de emergência em locais sem cobertura celular
- Redução de custos operacionais e de riscos
RELEVO ENCARECE A REDE TERRESTRE
No Espírito Santo, a chegada da ferramenta é vista de forma estratégica. Segundo o economista-chefe do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (IBEF-ES), Felipe Storch, a geografia do estado impõe desafios de comunicação para quem produz no interior. “Serras, vales, baixa densidade populacional e distâncias entre os núcleos econômicos tornam mais cara a expansão da infraestrutura terrestre”, afirma.
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Para Storch, o satélite pode compensar parte dessa desvantagem ao reforçar as redes tradicionais justamente onde elas têm mais dificuldade de chegar. “Quanto menor a diferença de conectividade entre uma empresa na Grande Vitória e outra em uma região rural, menor tende a ser a desvantagem competitiva”, explica o economista, que enxerga na tecnologia uma forma de equilibrar o jogo entre capital e interior.
COMPLEMENTO, NÃO SUBSTITUTO DO 5G
Analista de TI do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Espírito Santo (Senar-ES), Rodrigo Zolli Massini ressalta que o setor adota inovações quando elas geram retorno prático ao produtor. Ele pondera, porém, que o D2D não vem para substituir as redes celulares das grandes cidades. “Ela não substitui a 5G que a gente tem na grande cidade, porque a 5G tem uma velocidade muito maior”, diz.
A vantagem, segundo Massini, está em levar o básico a quem hoje não tem nada. “Naquela localidade onde não tinha nenhum tipo de sinal, o produtor vai conseguir fazer uma ligação, receber um SMS e enviar dados”, afirma. Para ele, isso muda o ritmo dos negócios: “Ele vai poder acompanhar o preço do café diariamente, por exemplo. Isso auxilia na tomada de decisão”.

RASTREABILIDADE DE OLHO NA EXPORTAÇÃO
Outro avanço projetado envolve a Internet das Coisas (IoT) integrada ao satélite. Exigências ambientais de mercados globais, como as previstas no acordo entre Mercosul e União Europeia, demandam comprovações rigorosas de rastreabilidade. Segundo Massini, um chip instalado no bezerro permite registrar toda a procedência do animal, mesmo que ele esteja solto em um pasto sem cobertura de rede celular.
“Quem quer exportar para a União Europeia tem uma série de exigências, e uma delas é o rastreamento”, explica o analista do Senar-ES. Com o sinal vindo diretamente do satélite, o dispositivo consegue enviar informações de qualquer ponto da propriedade, o que dá ao produtor mais clareza sobre o rebanho e mais segurança para atender às regras dos compradores europeus.
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GANHO VEM DA REDUÇÃO DE PREJUÍZOS
Para Felipe Storch, o benefício do D2D para as empresas rurais e para o transporte da safra não virá necessariamente como receita nova, mas como contenção de perdas. Em rodovias como a BR-101 e a BR-262, trechos sem sinal podem significar perda de dados de telemetria, dificuldade para acompanhar cargas e veículos e demora na resposta a acidentes, panes ou desvios.
No agro, o economista vê espaço para ampliar o monitoramento de máquinas, propriedades e produção, além de facilitar a comunicação das equipes e o uso da agricultura de precisão. “O ganho não necessariamente aparece como aumento direto de receita, mas como redução de custos, riscos e ineficiências”, afirma. Na visão dele, a conectividade vira ferramenta de proteção da margem.












