A ambição da SpaceX de transformar a Starlink em base para uma operadora móvel dificilmente seria repetida na Europa, segundo avaliação da Vodafone. A análise foi feita por Tim Boddy, diretor de ventures do grupo britânico e vice-presidente da Satellite Connect Europe, durante um painel na conferência Network X, realizada em Viena, na Áustria, nesta semana.
O debate ganhou força após a empresa de Elon Musk comprar o espectro de 800 MHz da Grain Management, nos Estados Unidos. Com a aquisição, a SpaceX reforça o objetivo de se tornar uma grande operadora móvel no país. Para Boddy, porém, diferenças de mercado, de regulação e de concorrência tornam a estratégia pouco provável de ser replicada no continente europeu.
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POR QUE A EUROPA É DIFERENTE
Na visão do executivo, não é óbvio que a SpaceX faria na Europa o mesmo movimento adotado no mercado norte-americano. Ele apontou três diferenças principais entre os dois cenários, que vão da forma como as frequências são negociadas até o nível de preços praticado pelas operadoras locais. Confira os pontos levantados por Boddy durante o painel em Viena:
- Espectro: na Europa, as operadoras não esperam ser donas das frequências para sempre, o que muda a lógica de compra vista nos Estados Unidos;
- Regulação: segundo Boddy, “os reguladores vão querer prestar muita atenção à necessidade de concorrência e de alternativas neste espaço”, em vez de aceitar um único player dominante;
- Preços: o mercado europeu é altamente competitivo. “Na verdade, temos os preços mais baixos do mundo em relação à renda”, disse o executivo.
O ceticismo não ficou restrito à Vodafone. John Giusti, diretor de regulação da GSMA, associação que reúne operadoras móveis de todo o mundo, também rejeitou durante o evento a ideia de que a SpaceX consiga substituir as redes móveis tradicionais. “Eu não prevejo que isso aconteça”, afirmou Giusti, que baseou sua opinião na forma como funcionam as leis da física.
SOBERANIA NO ESPAÇO EM DEBATE
A Satellite Connect Europe é a joint venture da Vodafone com a AST SpaceMobile, outra empresa de satélites dos Estados Unidos. Ainda assim, Boddy defendeu que o modelo é muito diferente do adotado pela Starlink ou pela Amazon, com desempenho bem melhor no quesito soberania. Segundo ele, o núcleo da rede e a infraestrutura de rádio ficam em solo europeu, sob controle da joint venture, sediada em Luxemburgo.
Mesmo assim, o executivo reconheceu que existe apetite por um serviço totalmente europeu. “Não é possível hoje para a Europa ter uma constelação de satélites soberana”, disse. “Pode ser possível no futuro, é algo que tenho certeza de que todo europeu desejaria”, completou. O tema ganhou peso com a recente decisão da União Europeia de reservar uma faixa de espectro para empresas do bloco.
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NA UCRÂNIA, SATÉLITE É PLANO B NA GUERRA
Para alguns europeus, porém, a soberania via satélite está longe de ser o maior desafio. Questionado pelo moderador, Volodymyr Lutchenko, diretor de operações da ucraniana Kyivstar, afirmou que, diante da escolha entre o “problema teórico da soberania” e a vida das pessoas, “você sempre escolhe a vida das pessoas”. Segundo ele, a Ucrânia responde por mais de 30% dos assinantes de serviços direct-to-device (D2D) no mundo.
A Kyivstar oferece o serviço D2D em parceria com a Starlink desde o ano passado e lançou recentemente a conexão de dados, ainda limitada a aplicativos como Viber e WhatsApp em celulares Android. No país, a tecnologia não funciona como um complemento para regiões remotas, mas como uma reserva para manter a população conectada quando a infraestrutura é danificada pela guerra travada pela Rússia.












