Reprodução/ChatGPT

Ascensão da IA obriga teles brasileiras a acelerar investimentos em rede

Cristino Melo
8 min de leitura

Com o avanço da inteligência artificial (IA), as teles brasileiras terão de investir para adaptar suas redes a uma nova lógica de tráfego de dados na internet. Até pouco tempo, o principal fluxo das operadoras vinha do consumo de streaming e downloads, com os dados saindo do data center rumo à tela do usuário, mas esse cenário já começou a se inverter de forma acelerada nos últimos meses.

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Agora, para gerar imagens, vídeos e textos em tempo real, a informação sai do celular e de computadores rumo à nuvem, invertendo décadas de lógica de consumo. A expectativa é que, já no início da próxima década, esse novo caminho de dados aumente cinco vezes, com 25% desse tráfego sendo gerado integralmente por agentes de IA, o que torna urgente a modernização das redes de telecomunicações no Brasil.

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BRASIL FICA ATRÁS NO ENVIO DE DADOS

Segundo estudo da consultoria americana Ookla, apenas 5,74% da capacidade das redes móveis no país está destinada ao chamado uplink, nome técnico dado ao tráfego de dados enviado pelo usuário para a internet. O percentual coloca o Brasil entre os países menos preparados para essa nova realidade e bem distante dos líderes globais nesse quesito, segundo a consultoria.

Já em nações como Indonésia, Alemanha, Tailândia, Suécia e Noruega, a fatia da rede dedicada ao envio de dados chega a quase 24%. Veja o comparativo levantado pela Ookla:

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  • Indonésia, Alemanha, Tailândia, Suécia e Noruega: cerca de 24% da rede dedicada ao uplink
  • Brasil: apenas 5,74% da capacidade das redes móveis dedicada ao uplink
  • Diferença: rede brasileira tem menos de um quarto da capacidade de envio dos líderes globais

INVESTIMENTOS SEGUEM ESTÁVEIS

Especialistas consideram o cenário desafiador, pois a expectativa é que os investimentos no Brasil permaneçam estáveis nos próximos anos. A Conexis, entidade que reúne as empresas do setor, estima aportes na ordem de R$ 36 bilhões neste ano. Além disso, a rede 5G pura, chamada de stand alone e necessária para rodar aplicações de IA em alta velocidade, responde por apenas 10% de toda a infraestrutura de quinta geração no país.

Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson para o Cone Sul da América Latina, lembra que a demanda vai crescer com a chamada IA física, quando vestíveis, drones e carros ganharem mais espaço no dia a dia das pessoas e passarem a trocar dados constantemente com a rede. Segundo ele, isso tudo vai gerar mais tráfego, pois serão produtos com IA usando agentes para enviar comandos para a rede.

Dienstmann completa que, com os agentes de IA, não existe mais a leitura de que a rede fica livre durante a madrugada, já que o uso passa a ser constante, ao longo das 24 horas do dia. Para o executivo, é necessário um reposicionamento das frequências, com a realocação do 3G e 4G para o 5G, além de ampliar a quantidade de sites para adensar a rede, afirma o presidente da Ericsson.

GARGALOS DE INFRAESTRUTURA

Andre Gildin, sócio da RKKG Consultoria, lembra que os países líderes do ranking já apostam em melhor uso da arquitetura de rede combinada à implantação do 5G voltada para aplicações de IA, além de sistemas mais eficazes de conexão entre fibras ópticas das teles e provedores de nuvem. Hoje, um dos gargalos no Brasil é a concentração de data centers em São Paulo.

Segundo Gildin, há no Brasil o desafio de latência entre a rede móvel e os grandes provedores de nuvem, o que significa que, mesmo com uma boa cobertura, as respostas de aplicações de IA podem demorar mais porque o caminho até a nuvem é longo ou pouco otimizado. Para o especialista, será necessário ampliar o espectro e acelerar a adoção do 5G stand alone.

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Mike Dano, analista chefe do setor de telecomunicações da Ookla, avalia que os maiores desafios para as teles serão econômicos. Segundo ele, as operadoras precisarão gerenciar suas redes para inverter décadas de priorização do download, ao mesmo tempo em que os consumidores podem não adotar os serviços mais avançados de IA se o custo for elevado, afirma o analista.

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5G AINDA EM EXPANSÃO NO PAÍS

Esse debate ocorre no momento em que o Brasil ainda tenta avançar com a conexão 5G, e os números mostram o tamanho do desafio à frente das operadoras. Veja o retrato atual da rede móvel brasileira, segundo dados da consultoria Teleco:

  • Assinaturas de telefonia móvel no país: 276,4 milhões
  • Participação do 5G: 23,9% das linhas
  • Participação do 4G: 64,3% das linhas
  • Participação do 3G: 5,1% das linhas
  • Cobertura do 5G: presente em 3.040 dos 5.570 municípios brasileiros
  • Cobertura do 4G: já alcança os 5.570 municípios do país

Para Marcos Ferrari, presidente executivo da Conexis, as teles estão atentas a esse movimento e a tendência é irreversível. Segundo a Ookla, com o aumento do uso da IA, o brasileiro passa a sentir uma rede mais lenta em horários de pico de consumo, com latência até sete vezes maior, o que pode afetar diretamente aplicações sensíveis ao tempo de resposta.

OPERADORAS JÁ SE MOVIMENTAM

André Sarcinelli, CTO da Claro, lembra que o desempenho das aplicações de IA depende da integração entre a infraestrutura de telecomunicações e o ecossistema de nuvem, e por isso a empresa já se posiciona como uma neocloud, investindo R$ 1 bilhão para ampliar sua plataforma. Segundo Guilherme Silveira, da Vivo, a operadora investe R$ 9 bilhões por ano na expansão do 5G e da fibra.

Marco Di Costanzo, vice presidente de Tecnologia da TIM Brasil, explica que a operadora vem acelerando a modernização de sua infraestrutura desde o ano passado, com a adoção de antenas controladas por IA capazes de se adaptar automaticamente ao fluxo de dados. A empresa já concluiu o projeto em São Paulo e pretende expandir para mais oito capitais brasileiras neste ano.

As operadoras desempenham papel fundamental na conectividade, mas também são essenciais os investimentos realizados por provedores de nuvem, data centers, hyperscalers e desenvolvedores de aplicações, afirma Silveira, da Vivo. Para os especialistas, o desenvolvimento desse ecossistema de IA será necessariamente colaborativo entre teles e big techs nos próximos anos.

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