Os roubos de iPhone em São Paulo estão redesenhando o mapa do crime na maior cidade do Brasil. Dados do Mapa do Crime, ferramenta interativa do jornal O Globo baseada em 330 mil boletins de ocorrência da SSP-SP, mostram que a preferência dos bandidos pelos aparelhos da Apple está deslocando as ocorrências do Centro expandido para a periferia paulistana.
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O movimento é recente e acelerado. Em 2025, enquanto os roubos de iPhone na cidade caíram 1,8% no total, de 21.703 para 21.320 casos, três distritos da Zona Sul figuraram entre os cinco com maior crescimento desse tipo de crime na capital. O contraste com o Centro expandido revela uma reorganização criminal ligada tanto à popularização dos dispositivos da Apple quanto às mudanças no controle territorial do crime organizado.
ZONA SUL NO EPICENTRO DOS ROUBOS
Os três distritos que formam o novo cinturão do crime na Zona Sul registraram, juntos, quase cinco mil roubos em 2025, um aumento de 14% em relação ao ano anterior. A variação por distrito foi a seguinte:
| Distrito | Roubos em 2024 | Roubos em 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Jardim Herculano | 171 | 333 | +94,7% |
| Parque Santo Antônio | — | — | +63,9% |
| Capão Redondo | — | — | +45,4% |
No Capão Redondo, a escalada de iPhones foi tão intensa que puxou sozinha a alta nos números totais de roubos de celular do distrito. Mesmo com quedas expressivas de outras marcas — Samsung recuou 20,5% e Motorola, 19,1% —, o avanço dos roubos de aparelhos da Apple foi suficiente para elevar o índice geral de ocorrências no bairro.
QUEDA NO CENTRO E NA PAULISTA
O cenário oposto se consolidou nas regiões centrais da cidade. Os principais recuos registrados foram:
- Consolação: queda de 32% nos roubos de iPhone, de 912 para 619 casos
- Campos Elíseos: retração de 23,7%
- Avenida Paulista: queda de 56%, de 197 para 86 casos, saindo do 1º para o 7º lugar no ranking da cidade
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A Avenida Paulista é vitrine de um programa de intensificação do policiamento que envolve tanto o governo estadual quanto a prefeitura. Seus resultados mostram que o reforço presencial tem impacto direto sobre os índices de roubo de celular e que a replicação desse modelo para outras regiões pode ser um caminho para conter o avanço dos crimes na periferia.

PCC, MUDANÇA GERACIONAL E O CELULAR COMO “CORRE”
Especialistas apontam que a transformação não é apenas operacional, mas também cultural dentro do crime organizado. Segundo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), “existe uma mudança geracional em curso. A velha guarda do PCC não permitia assaltos na periferia, existia uma espécie de código de honra. E existe uma certa tolerância dessas lideranças mais jovens com o crime patrimonial, que é visto como um ‘corre’ legítimo.”
Essa nova dinâmica explica por que bairros periféricos passaram a registrar explosão de roubos de um produto de alto valor como o iPhone. A combinação entre a valorização do dispositivo no mercado paralelo e a dissolução do código de conduta imposto pela velha guarda criou um ambiente propício para que o roubo de aparelhos da Apple se tornasse cada vez mais comum nas periferias paulistanas.
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RESPOSTA DO PODER PÚBLICO
Questionada sobre os aumentos nos distritos da Zona Sul, a SSP afirmou, em nota, que suas análises estatísticas “não são estruturadas por marca ou modelo de aparelho”. A pasta garantiu, no entanto, que variações nos indicadores criminais motivam reavaliações operacionais, com possíveis reforços de policiamento, ajustes no patrulhamento e intensificação de investigações conforme necessidade local.
O delegado Daniel Borgues, da 1ª Delegacia Seccional (Centro), indicou que a Polícia Civil realiza operações contra pontos de comércio ilegal de eletrônicos e “tem focado em mapear rotas, intermediários e organizações envolvidas no escoamento ilegal de celulares para outros países”. A Guarda Civil Metropolitana informou que intensifica o patrulhamento preventivo com foco especial nas zonas Sul e Leste da capital.
O cenário reforça a necessidade de políticas de segurança digital mais robustas para usuários de smartphones, como o bloqueio remoto de dispositivos e maior integração de dados entre operadoras de telefonia e forças de segurança. Essas ferramentas, em conjunto com o policiamento presencial, podem contribuir para frear a circulação dos aparelhos roubados no mercado paralelo.












