Crise: Fusão entre Oi e Portugal Telecom pode não acontecer

Com descobertas feitas durante a semana, Otávio Azevedo (no meio) e Fernando Magalhães (do Grupo Jereissati) renunciaram ao conselho da PT.
Os controladores da Oi estão pressionando a Portugal Telecom para encontrar uma solução para a crise gerada pela descoberta de um investimento de quase 900 milhões de euros feitos na Rioforte – holding do Grupo Espírito Santo (GES) – empresa que passa por dificuldades financeiras. Os sócios brasileiros nem cogitam a hipótese de arcar com uma possível perda gerada pela transação e, segundo fontes, já decidiram que se o prejuízo ocorrer irão cobrar uma redução da fatia do grupo português na CorpCo, empresa que surgirá da fusão entre as duas operadoras.
A reação negativa dos acionistas controladores da Oi levou a companhia a divulgar um comunicado em que informa ter pedido explicações à Portugal Telecom sobre o investimento. No documento, a operadora brasileira garante que irá defender seus interesses tomando “as medidas necessárias”.

A Oi argumenta que não foi informada nem participou das decisões que levaram às aplicações na Rioforte e ressalta que ocorreram “anteriormente à subscrição e integralização do capital da Oi pela Portugal Telecom”.

A imprensa brasileira e portuguesa apurou que os controladores estão perplexos por essa dívida não ter sido identificada por auditores ou pelo Santander Brasil, responsável pelo laudo de avaliação dos ativos da PT, que foram usados no recente aumento de capital da Oi.

Com o episódio, Otávio Azevedo, presidente do grupo Andrade Gutierrez, e Fernando Magalhães, da Jereissati Participações, representantes da Oi no conselho da PT, renunciaram ao cargo.

As atenções agora estão voltadas para o vencimento da dívida. Dos 897 milhões de euros, a maior parte vence no dia 15 (847 milhões de euros) e o restante no dia 17. Segundo fontes, a maior preocupação é em relação ao pouco tempo que a Rioforte tem para levantar os recursos para fazer o pagamento.

A preocupação dos investidores com os possíveis impactos na Oi dos investimentos da PT fizeram as ações da companhia brasileira amargarem mais uma perda de 2,76% nesta quinta-feira (03) na BM&FBovespa. Mais uma porque o Minha Operadora já tinha noticiado queda no valor das ações da empresa desde o dia 1º de Julho. Na Bolsa de Lisboa, os papéis da Portugal Telecom fecharam em queda de 7,29%, a maior queda percentual desde setembro de 2002. Com a desvalorização para 2,29 euros, o papel atingiu o menor nível desde 1995.
Em uma tentativa de acalmar o mercado, a operadora portuguesa também divulgou comunicado em que diz que tem prestado à Oi toda a informação solicitada e “está fortemente empenhada na resolução” da questão.

No comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), de Portugal, a PT diz que as duas empresas e o Grupo Espírito Santo “serão capazes de encontrar as soluções adequadas para proteger os interesses dos acionistas”. Além disso, informou que está prestando suporte à Oi nas diligências necessárias para garantir à empresa brasileira “a máxima proteção da aplicação de tesouraria em papel comercial da Rioforte”.

Resumo: Tida como a principal fusão do setor de telecomunicações do mundo, a união entre Oi e Portugal Telecom (PT) pode não acontecer. No epicentro da crise, que colocou em lado opostos os acionistas das duas empresas, está o risco de um calote de € 897 milhões (cerca de R$ 2,717 bilhões), fruto de uma aplicação feita em meados de abril pela companhia portuguesa na Rio Forte, empresa do Grupo Espírito Santo (GES), que, dizem analistas do mercado, passa por dificuldades financeiras e tem 10% das ações da PT. A crise ganhou contornos maiores nesta quinta-feira (03), após a Oi informar, em fato relevante, que não sabia da operação e que “tomará as medidas necessárias à defesa de seus interesses”. 

Nos bastidores, a aplicação feita pela PT já é tratada como dinheiro perdido. Como o risco de calote é real, dizem fontes do setor, o presidente da Oi, Zeinal Bava, já conversa com investidores que participaram da capitalização da companhia carioca, em abril, para acertar uma solução. De acordo com essas fontes, a Oi e a PT vão rever a relação de troca e outros aspectos do acordo assinado entre as empresas. 
Para você entender melhor: na capitalização da Oi, a PT não entrou com dinheiro e sim com seus ativos, avaliados em R$ 5,71 bilhões. Pelo prospecto das empresas, esses ativos serão convertidos em ações da Oi. E, segundo uma fonte, é essa relação de troca que já está sendo discutida. Se realmente o calote se concretizar, a PT vai perder quase metade do valor, entrando com apenas R$ 2,983 bilhões. Assim, a capitalização da Oi, que chegou a R$ 13,96 bilhões, segundo informou a Oi no dia 05 de maio, poderia sofrer uma redução para R$ 11,2 bilhões — e abaixo do patamar mínimo estabelecido no memorando de entendimentos, de outubro do ano passado, de R$ 13,1 bilhões. 

O negócio já está sendo investigado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM, a fiscal do mercado de capitais de Portugal). Para especialistas, a autoridade portuguesa investiga se a aplicação dos recursos foi feita para “socorrer” um acionista em dificuldades financeiras.

Procurada, a Portugal Telecom não retornou. A assessoria de imprensa do BES disse que a operação brasileira não responde pela Rio Forte. A BTG, que participou da capitalização, e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), também não quiseram responder. A Previ não retornou aos questionamentos da imprensa. Segundo Lucas Marins, da Ativa, o mal-estar entre as empresas vai resultar em quedas nas ações. E para Pedro Galdi, da SLW, o risco de calote enfraquece a PT.

Em meio às polêmicas, segundo o jornal Valor Econômico, o secretário-executivo do ministério das Comunicações, Genildo Lins deu mais um banho de água fria no par de empresas do setor de telecomunicações. Segundo ele, as dificuldades por elas enfrentadas no processo de fusão não são um problema do governo.
“Isso é um problema da Oi com a Portugal Telecom. O que a Oi tem que fazer é prestar um bom serviço para o brasileiro. Nós não vamos nos meter em questões privadas”, disse.

O caso levantou o ceticismo do mercado em relação à transparência de gestão da PT.

Com informações de InfoMoney, Valor Econômico e Estadão Conteúdo.
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