Reprodução/Gavin John

Comunidade indígena constrói rede de fibra e leva internet rápida sem usar Starlink

Cristino Melo
8 min de leitura

Uma rede de fibra óptica construída e operada por comunidades indígenas Cree levou internet de alta velocidade ao Ártico canadense, em uma das regiões mais difíceis do país para instalar infraestrutura. O projeto conectou cerca de mil casas e empresas espalhadas por 300 quilômetros da costa de James Bay e registra latência menor que a das conexões via satélite.

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Por trás da obra está a Western James Bay Telecom Network (WJBTN), organização sem fins lucrativos criada por lideranças Cree. Desde 2014, quando o responsável financeiro Brian Nakogee assumiu a missão de viabilizar o projeto, foram oito anos de negociação, engenharia e captação até a rede residencial ser ligada, em abril de 2022, sem estradas e sem equipe técnica local.

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QUASE SEM ESTRADAS

Fort Albany fica a cerca de 975 quilômetros ao norte de Toronto. Para alcançar serviços e suprimentos, os moradores precisam percorrer aproximadamente 500 quilômetros até Timmins, trajeto possível por terra apenas durante poucas semanas do inverno, quando o terreno congela e permite abrir uma estrada temporária. A região já tinha uma espinha dorsal de fibra, mas isso não se traduzia em velocidade dentro das casas.

Cerca de 6 mil pessoas dividiam uma capacidade total de apenas 1 Gb/s. As redes sem fio anunciadas com 10 Mb/s entregavam, nos testes, algo próximo de 3 Mb/s, com franquias rígidas de dados e cobrança pesada por excedente. Quando entrou na WJBTN, em 2014, Nakogee recebeu a tarefa de levar fibra a cerca de mil imóveis distribuídos ao longo de 300 quilômetros de costa.

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ENGENHARIA ÓPTICA NO GELO

O desenho definitivo começou em 2015, ao lado do engenheiro Dirk MacLeod, e combinava duas frentes. Ampliar a capacidade de transporte de longa distância e, ao mesmo tempo, criar uma estrutura de acesso barata de manter em um território onde cada reparo depende de avião. O resultado é uma rede em camadas, com pouco equipamento ativo espalhado pela costa de James Bay.

CamadaTecnologiaO que entrega
Transporte de longa distânciaÓptica coerenteAté 100 Gb/s aos pontos de distribuição de cada comunidade, com redundância se uma fibra falhar
Distribuição localGPON com divisores ópticos passivosReparte o sinal na subestação elétrica da localidade, sem equipamento energizado em cada junção
Acesso residencialFibra até a casa do assinante250 Mb/s de download e 30 Mb/s de upload no plano inicial, sem limite de dados

AS ETAPAS DA OBRA

A logística foi tão complexa quanto o projeto. Equipamentos saíram de Timmins em aviões fretados, e bobinas gigantes de fibra tiveram que ser cortadas em trechos predeterminados e reembaladas para caber nas aeronaves de carga. Antes do envio, o sistema óptico foi montado e testado em laboratório na Suécia, para reduzir surpresas em um lugar sem loja de peças por perto. Veja a linha do tempo da rede:

  • 2008: cabos de fibra são pendurados nos postes de energia que ligam Moosonee às comunidades do norte
  • 2014: Nakogee assume a missão de levar fibra a cerca de mil imóveis da costa de James Bay
  • 2015: começa o desenho técnico da rede, com espinha dorsal ampliada e arquitetura GPON
  • 2019: a nova espinha dorsal de 100 Gb/s entra em operação e conecta hospitais, escolas e navegação aérea
  • 2022: a rede residencial é ligada em Fort Albany e, até o fim do ano, chega a todas as casas previstas

MÃO DE OBRA FORMADA NA COMUNIDADE

Em 2019, a morte repentina de Dirk MacLeod interrompeu os trabalhos, e logo depois a pandemia fechou as comunidades a visitantes justamente quando a conexão era mais necessária. A saída foi formar gente dali. Moradores aprenderam a instalar e emendar fibras, atravessando vegetação fechada e água na altura das coxas, e chegaram a subir nos postes por falta de caminhão com plataforma.

Em abril de 2022, quase sem aviso, Fort Albany ligou a rede residencial, e a chefe da comunidade acordou no dia seguinte a um clique de distância dos filhos que moram em cidades distantes. Até o fim daquele ano, a infraestrutura alcançava todas as casas previstas. “A qualidade de vida está muito melhor”, resume Peyton Reuben, morador que aprendeu a emendar fibra na obra.

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FIBRA CONTRA A INTERNET VIA SATÉLITE

Quando a Starlink se espalhou pela região, muitos moradores questionaram por que instalar cabos em casa se bastava colocar uma antena no telhado. A resposta apareceu nos testes de latência, o tempo que um pacote de dados leva para ir e voltar. A rede terrestre não precisa enviar o sinal a centenas de quilômetros de altitude, e essa vantagem fica evidente em chamadas de vídeo e jogos.

ConexãoLatência de Attawapiskat até Toronto
Internet sem fio anteriorVárias centenas de milissegundos
Satélite comparávelPerto de 60 ms
Fibra da WJBTN na ativaçãoCerca de 20 ms
Fibra da WJBTN hojeCerca de 12 ms

Para Nakogee, porém, a vantagem decisiva não está apenas na velocidade. A WJBTN é dona da fibra da espinha dorsal, do direito de passagem e dos postes que sustentam a rede, o que torna muito mais difícil para uma operadora de fora ocupar o lugar do serviço. A infraestrutura e a receita gerada ficam dentro das comunidades. “Essa é a nossa arma secreta”, diz ele.

O QUE MUDOU NA VIDA DIÁRIA

O efeito prático apareceu rápido. Moradores passaram a tocar pequenos negócios de casa, pacientes ganharam acesso a especialistas de cidades do sul por telessaúde e reuniões comunitárias passaram a aceitar participação remota. Um conselheiro local atende sessões de luto e dependência química por vídeo e respondeu pela internet ao alerta que mobilizou o resgate de um jovem perdido no gelo em 2024.

A experiência virou referência para outras redes. A WJBTN passou a compartilhar o modelo em encontros sobre conectividade indígena, o Canadá criou uma linha de financiamento de banda larga voltada a essas comunidades e, nos Estados Unidos, 30 tribos já operam redes de fibra até a casa do assinante. A empreiteira responsável pela espinha dorsal trata o caso como modelo de obra remota.

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