A Rússia está acelerando a construção da Rassvet, rede própria de internet via satélite criada para substituir a Starlink no conflito com a Ucrânia. O movimento ganhou força depois que as tropas russas perderam, no início de 2026, o acesso clandestino aos terminais da SpaceX, empresa do bilionário Elon Musk. O projeto é tocado pela empresa aeroespacial russa Bureau 1440 e já preocupa autoridades ucranianas.
O objetivo do Kremlin é reduzir a dependência de tecnologia estrangeira e garantir conexão para comunicações militares e operação de drones. Desde março, a Bureau 1440 colocou em órbita duas levas de 16 satélites de órbita baixa. Especialistas ouvidos pela DW, porém, apontam que a capacidade da rede ainda é limitada e que a cobertura sobre a Ucrânia é intermitente.
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POR QUE A STARLINK FAZ DIFERENÇA NA GUERRA
A Starlink funciona como um provedor de internet a partir do espaço. Em vez de poucos satélites em órbitas elevadas, como nos sistemas tradicionais, a SpaceX opera milhares de equipamentos na órbita baixa da Terra. Pequenas antenas em solo se conectam ao satélite que passa sobre a região, mantendo o acesso mesmo quando torres de telefonia são destruídas, cabos de fibra óptica são cortados ou as tropas estão em áreas remotas.
No campo de batalha, essa conexão sustenta a operação de drones e mísseis e a comunicação tática, que exigem o envio de grandes volumes de dados, como vídeo em tempo real. Falhas de poucos segundos podem decidir o sucesso de uma operação. Segundo Clayton Swope, diretor de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), a Ucrânia levou vantagem no início da guerra justamente por ter acesso à rede.
“A Starlink era tão importante que os russos tentaram durante muito tempo usá-la para seus próprios propósitos militares”, afirmou Swope em entrevista à DW. “A Rússia não tinha nada que pudesse competir com isso.” É nesse contexto que surge a Rassvet, palavra russa para “aurora”, aposta do Kremlin para obter capacidades semelhantes às oferecidas pelo serviço de Elon Musk.
RASSVET JÁ TEM SATÉLITES EM ÓRBITA
A Bureau 1440 lançou os primeiros 16 satélites de banda larga da constelação em março de 2026 e outros 16 em julho. Cada um é capaz de oferecer conexão de até 1 Gbps. A meta da empresa é ter 292 satélites em operação até 2027, segundo a Radio Free Europe. Ainda é pouco perto da SpaceX, que mantém milhares de unidades em órbita, mas o ritmo de lançamentos chamou atenção.
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Do ponto de vista técnico, a empresa afirma que o funcionamento da rede russa se apoia na tecnologia 5G NTN, padrão de redes não terrestres, na comunicação entre os satélites e os terminais em solo. Já a troca de dados entre os próprios satélites é feita por laser. Em testes, a Bureau 1440 informou ter transmitido dados entre espaçonaves a até 1.000 km de distância, com velocidade de até 10 Gbps.
TERMINAIS RUSSOS IMITAM A LINHA DA STARLINK
Para conectar usuários à rede, a Bureau 1440 apresentou três terminais de assinante com propostas muito parecidas com as da linha vendida pela SpaceX. Segundo a própria empresa, os equipamentos atendem desde indústrias e áreas remotas até trens em alta velocidade e equipes de resgate. Veja as principais características de cada modelo e o equivalente mais próximo na Starlink:
- 1440.ULTRA: modelo produzido em massa, com velocidade de até 700 Mbps. Voltado a empresas, áreas remotas e infraestrutura, é o equivalente mais próximo do Starlink Standard;
- 1440.ZEMLYA: pensado para o transporte ferroviário, mantém o serviço em composições a até 400 km/h. É comparável ao Starlink Performance;
- 1440.MINI: ainda em fase de conceito, mira cerca de 100 Mbps em um aparelho compacto para poucos usuários, como equipes de emergência. Equivale ao Starlink Mini.
Pelas especificações, esses terminais poderiam ser instalados em drones russos de ataque usados contra a Ucrânia. Ainda assim, a conectividade dependerá da produção dos aparelhos em larga escala pela Rússia e de estruturas de controle operacional em solo capazes de resistir a ataques ucranianos, dois obstáculos que ainda não foram superados pelo programa.
CAPACIDADE AINDA FICA LONGE DA SPACEX
Apesar do avanço, a capacidade da Rassvet é muito inferior à dos satélites mais modernos da SpaceX, segundo o astrofísico e historiador espacial Jonathan McDowell. “A atual geração da Starlink tem cerca de 100 gigabits por segundo. A próxima geração terá dez vezes mais do que isso”, explicou. Para ele, o sistema russo está na faixa inferior entre as megaconstelações de internet via satélite. Veja a comparação:
| Sistema | Capacidade aproximada |
|---|---|
| Rassvet (Rússia) | até 1 Gbps por satélite |
| OneWeb (Europa) | cerca de 10 Gbps |
| Starlink (geração atual) | cerca de 100 Gbps |
| Starlink (próxima geração) | cerca de 1.000 Gbps |
Há ainda problemas de órbita. De acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), a primeira leva chegou à altitude prevista, mas a segunda ficou entre 300 e 400 km, abaixo do esperado. O primeiro satélite desse grupo só atingiu a órbita operacional, a cerca de 500 km de altitude, no fim de setembro, 68 dias após o lançamento, segundo informações divulgadas pela própria empresa.
A altitude pesa porque, quanto mais alta a órbita, maior a área coberta. Como os satélites estão em movimento, cada um oferece apenas uma janela curta de sinal sobre uma região, o que exige muito mais unidades do que a Rússia tem hoje. Swope vê os planos com ceticismo. “A grande questão é se isso acontecerá. Nem sequer é quando”, disse o especialista.
Segundo ele, alguns satélites tiveram falhas completas e não estão nas órbitas esperadas. “Neste momento, a utilidade de um sistema como esse é muito pequena, oferecendo uma janela muito curta de cobertura apenas algumas vezes por dia sobre a Ucrânia”, avaliou o diretor do CSIS sobre o estágio atual da rede russa, que ainda está longe de oferecer conexão contínua às tropas.
POR QUE O RASSVET PREOCUPA A UCRÂNIA
Mesmo com as limitações, McDowell avalia que a rede russa não precisa igualar a Starlink para ter utilidade militar. Na visão dele, uma infraestrutura menos avançada já pode ajudar nas comunicações das tropas e na coordenação de drones no campo de batalha. O alerta também vem de Kiev, onde o vice-chefe da inteligência militar ucraniana, Vadym Skibitsky, afirmou que Moscou acelerou a implantação.
“Eles já começaram os lançamentos muito mais rapidamente do que o planejado originalmente. Por enquanto, o sistema só pode operar de forma intermitente, quando um satélite passa sobre nosso território. Quando a Rússia implantar uma constelação completa de satélites, o sistema funcionará como a Starlink. Já há discussões sobre como neutralizá-lo”, disse Skibitsky.
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CORRIDA GLOBAL POR ALTERNATIVAS À STARLINK
A guerra reforçou a percepção de que a internet via satélite virou um ativo estratégico e de que é arriscado depender de uma única empresa privada em cenários de conflito. A China desenvolve suas próprias megaconstelações, a União Europeia investe bilhões no Iris², rede soberana de comunicações via satélite, e a Amazon trabalha no Projeto Kuiper, concorrente americano da Starlink.
Para Swope, porém, a dependência mundial da SpaceX segue grande. “Há essencialmente apenas um concorrente neste momento. É uma empresa europeia, a OneWeb, que não tem nem de longe a capacidade da Starlink”, afirmou. Com Rassvet, Iris² e Kuiper em expansão, o cenário aponta para uma nova corrida espacial, desta vez focada no controle das comunicações globais.












