Os smartphones já foram a forma mais prática de sintonizar o Rádio FM, mas essa função praticamente desapareceu dos aparelhos vendidos hoje. A mudança foi conduzida por fabricantes e operadoras ao longo da última década, sem anúncio formal ao consumidor, e ganhou força quando o setor de telefonia móvel passou a apostar todas as fichas no consumo de dados.
No Brasil, onde o rádio segue tocando em carros, salões e cozinhas, o efeito prático é que o ouvinte passa a depender de conexão para acompanhar a mesma programação. Boa parte dos celulares ainda traz o sintonizador no hardware, porém desativado por software. Sobra um recurso gratuito e sem assinatura que existe fisicamente no aparelho, mas não chega a quem pagou por ele.
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COMO O RÁDIO FM ENTROU E SAIU DA CENA
A tentativa mais organizada de levar o Rádio FM aos celulares veio da emissora Emmis Communications, que liderou um consórcio e lançou o aplicativo NextRadio. Bastava plugar um fone, que funcionava como antena, para sintonizar. O modelo dependia do apoio das operadoras e da audiência, e essa combinação durou menos de cinco anos, como mostra a linha do tempo:
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 2013 | Emmis Communications e um consórcio de radiodifusores lançam o NextRadio |
| 2013 a 2016 | Sprint embarca o app nos aparelhos em troca de pagamentos anuais de até US$ 15 milhões, cerca de R$ 77 milhões na cotação atual |
| 2016 | CTIA aponta falta de demanda entre clientes e a Emmis encerra o acordo com a Sprint |
| 2017 | Emmis muda a estratégia e fecha contrato com a LG |
| 2018 | Samsung assina acordo semelhante |
| Em seguida | NextRadio é efetivamente desativado |
SAMSUNG RESTRINGIU O RECURSO POR REGIÃO
A recepção de FM nos smartphones sempre foi limitada e ficou ainda mais estranha com o passar dos anos. Nos últimos ciclos, a Samsung passou a liberar o recurso apenas em aparelhos vendidos em determinadas regiões. Um dono de Galaxy S25 comprado na Coreia do Sul mostrou o aplicativo de rádio funcionando no Reddit, e o relato dele deixa claras as amarras do recurso:
- Disponível apenas em unidades vendidas em determinadas regiões
- Não permite gravar as transmissões sintonizadas
- Exige o fone USB-C da AKG que acompanha o aparelho
- Nos demais mercados, o sintonizador foi removido da placa ou bloqueado por software
O QUE MUDOU DENTRO DOS APARELHOS
Os modems dos celulares mudaram de formato várias vezes, e cada geração redesenhou o espaço interno do aparelho. A Qualcomm, uma das principais fabricantes de chips móveis, estreou o suporte ao 5G em 2019 com um modem separado, em vez de integrá-lo ao processador principal daquele momento. Avanços menos comentados, como MIMO e outras tecnologias de antena, também empurraram novos desenhos de placa.
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OS QUATRO FATORES POR TRÁS DO ADEUS
Nesse rearranjo, o sintonizador de FM e o consumo de energia que ele exige acabaram preteridos em favor de uma experiência melhor de streaming via 5G e Wi-Fi. Nenhum desses motivos aparece isolado, e organizá-los em ordem ajuda a entender por que o recurso virou exceção justamente nas linhas de smartphones mais vendidas. Veja os quatro pontos que sustentam a decisão:
- Falta de demanda comprovada pelas operadoras ao longo do programa NextRadio
- Espaço interno disputado por modems 5G, antenas MIMO e novos arranjos de placa
- Consumo extra de energia de um sintonizador pouco utilizado
- Prioridade comercial para streaming em 5G e Wi-Fi, que gera receita de dados

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O BRASIL
O ponto que mais interessa ao mercado brasileiro está no fim dessa lista. Em regiões onde a cobertura de rede e a renda são mais restritas, o FM continua fazendo sentido no bolso do consumidor, e é justamente nesses lugares que o recurso ainda aparece em alguns aparelhos. O rádio aberto não consome franquia de dados nem exige plano ativo para funcionar.
Para operadoras e radiodifusores no Brasil, a disputa é sobre qual caminho leva o áudio até o ouvinte. Sem sintonizador liberado, toda a escuta migra para o tráfego de dados, o que interessa ao setor móvel e pressiona as emissoras a competirem dentro dos aplicativos. As fabricantes seguem sem explicar publicamente por que desligaram um recurso que muitos aparelhos ainda carregam.












