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Escassez global de memória deve derrubar venda de smartphones em 2026

Cristino Melo
6 min de leitura

A escassez global de chips de memória vai fazer o mercado mundial de smartphones recuar 12,9% em 2026, segundo projeção divulgada nesta semana pela IDC (International Data Corporation), consultoria líder em pesquisa de mercado tecnológico. A crise, provocada pela corrida da indústria de inteligência artificial por componentes DRAM e NAND, reduzirá os embarques globais de celulares de 1,26 bilhão para cerca de 1,1 bilhão de unidades — o maior retrocesso do setor em anos recentes.

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A raiz do problema está na reorganização da cadeia global de semicondutores. A produção de memórias do tipo DRAM — componente essencial para o processamento de dados em dispositivos móveis — vem sendo cada vez mais direcionada para data centers que sustentam aplicações de IA generativa. Segundo a McKinsey, cerca de 70% dos centros de processamento de dados deverão ser dedicados a operações de inteligência artificial até 2030.

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Esse movimento leva fabricantes de chips a priorizar pedidos de gigantes como Nvidia, OpenAI e Meta em detrimento do setor móvel. O impacto é sentido diretamente na disponibilidade e no custo dos componentes para celulares. “A questão não é apenas o preço. O problema é simplesmente a disponibilidade”, afirmou Cristiano Amon, CEO da Qualcomm, maior fornecedora global de processadores móveis. “A disponibilidade de memória determinará o tamanho geral do mercado de celulares”, completou.

Preços sobem e celulares baratos somem do mercado

Para compensar a queda no volume de embarques, fabricantes devem elevar os preços médios de venda dos aparelhos em até 14%, segundo a IDC — uma pressão que tende a ser sentida com força nos mercados emergentes, incluindo o Brasil. Os celulares de entrada serão os mais afetados pela crise, com fabricantes optando por cortar especificações técnicas ou simplesmente descontinuar modelos pouco lucrativos.

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O segmento de aparelhos mais acessíveis, historicamente responsável por grande parte do volume global de vendas, deve encolher de forma expressiva:

  • 170 milhões de smartphones abaixo de US$ 100 foram vendidos no mundo em 2025
  • Esse segmento tornou-se economicamente inviável de sustentar nas condições atuais, segundo a IDC
  • Fabricantes devem reduzir especificações de armazenamento e memória RAM para equilibrar custos
  • Xiaomi e Lenovo já sinalizaram reajustes de preços ao consumidor final

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Grandes fabricantes levam vantagem

Apple e Samsung, que lideraram as vendas globais em 2025, devem enfrentar melhor a turbulência. Com escala global, poder de barganha e contratos de longo prazo com fornecedores de semicondutores, essas empresas têm mais ferramentas para absorver os choques de custo. “Vendedores menores e regionais terão cada vez mais dificuldade em competir por componentes”, alertou a IDC.

Veja como os diferentes perfis de fabricantes se posicionam diante da crise:

Perfil de fabricanteExposição à criseEstratégia esperada
Apple e SamsungBaixaContratos de longo prazo com fornecedores
Xiaomi e OppoAltaReajuste de preços e foco no segmento premium
Marcas regionaisMuito altaDificuldade em competir por componentes

Uma crise “como nenhuma outra”, segundo a IDC

Para Nabila Popal, diretora sênior de pesquisa da IDC, a magnitude desta crise supera choques anteriores do setor. “As tarifas e a crise da pandemia parecem uma piada em comparação com isso”, declarou a executiva. “O mercado de smartphones testemunhará uma mudança radical quando esta crise terminar — em tamanho, preços médios de venda e cenário competitivo. Não esperamos que a situação melhore antes de meados de 2027, pelo menos.”

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Recuperação gradual a partir de 2027

A IDC projeta retomada modesta do crescimento a partir de 2027, com expansão estimada em 2% naquele ano e avanço mais consistente de 5,2% em 2028. A recuperação, porém, estará condicionada à normalização da oferta de semicondutores e à estabilização dos preços — e mesmo após esse processo, o retorno às estruturas de preços de 2025 é considerado improvável.

“Os dias dos smartphones baratos acabaram, pois mesmo quando a crise terminar, não esperamos que os preços da memória voltem aos níveis de 2025”, resumiu Popal. O mercado móvel que surgirá do outro lado desta crise será menor, mais caro e mais concentrado entre grandes fabricantes globais.

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