segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Anatel julgará propostas das teles por frequência do 4G nesta terça

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Faixa de frequência de 700 MHz é valiosa, porém problemática para as operadoras, que terão de realizar investimentos bilionários.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) abre, nesta terça-feira (29), os envelopes com as propostas das operadoras Algar Telecom, Claro, Telefônica/Vivo e TIM para usar a frequência dos 700 MHz na oferta do serviço de telefonia celular de quarta geração (4G). O leilão, que deve arrecadar cerca de R$ 7,7 bilhões, permitirá que a frequência seja explorada por 15 anos. A alta quantia cobrada pelo governo e a série de exigências previstas no edital demonstram que o ativo é valioso. Os 700 MHz vão permitir a ampliação das redes de internet móvel de alta velocidade, em cobertura e capacidade, para atender a demanda dos brasileiros ao longo da próxima década. “Com a frequência de 700 MHz, o 4G será oferecido em larga escala e vai se popularizar mais rápido do que se imagina”, diz João Rezende, presidente da Anatel, em entrevista a uma revista de grande circulação.

A telefonia celular de quarta geração (4G), que permite acessar a internet pelo smartphone com velocidade até cinco vezes maior do que o 3G, entrou em operação na frequência de 2,5 GHz no Brasil em março de 2013. As quatro maiores operadoras - Vivo, TIM, Claro e Oi - instalaram suas redes nas cidades-sede da Copa das Confederações e, em seguida, nas cidades-sede da Copa do Mundo. Priorizar essas regiões foi uma das condições impostas pela Anatel no edital de licitação da faixa de 2,5 GHz. De lá para cá, 120 municípios já receberam redes 4G, ainda que parcialmente. No total, 38,8% da população vive em localidades atendidas. Em agosto deste ano, de acordo com dados da Anatel, o Brasil alcançou 3,6 milhões de assinantes de 4G no país. Apesar do ritmo acelerado de crescimento no último ano, o número só representa 1,3% das linhas ativas de telefonia móvel no Brasil.

Os investimentos em 4G na faixa de 2,5 GHz devem continuar nos próximos anos, uma vez que as operadoras ainda têm outras três metas de cobertura a cumprir: até dezembro de 2015, moradores de todos os municípios com mais de 200.000 habitantes precisam ter o serviço disponível. No final de 2016 termina o prazo para chegar àqueles com mais de 100.000 habitantes. Por último, é preciso atender os municípios com mais de 30.000 habitantes até dezembro de 2017.

Se falta percorrer um longo caminho com o 4G em 2,5 GHz, o que explica o interesse das operadoras na faixa dos 700 MHz? Chris Pearson, presidente da associação 4G Americas, que reúne empresas de toda a cadeia das telecomunicações continental, explica: “Frequência é como a água para os peixes. É essencial para as operadoras. O uso de novas faixas para 4G vai permitir maior capacidade da rede, cobertura e velocidade de transmissão de dados.”

Embora, no longo prazo, os usuários de internet móvel percebam as melhorias na rede, como o sinal mais forte dentro de casas e prédios nas grandes cidades, as operadoras devem ser as maiores beneficiadas pelo uso dos 700 MHz. Considerado um espectro de frequência baixo, os 700 MHz têm maior capacidade de propagação do sinal do que a faixa de 2,5 GHz, considerada alta pelos especialistas. Na prática, explica Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, ao adotar uma frequência mais baixa, a operadora precisa instalar um número menor de estações rádio-base para cobrir uma determinada área. “O raio de cobertura de uma antena de 2,5 GHz é de três a quatro vezes menor do que o de um equipamento que opera na faixa de 700 MHz”, explica Tude. Isso permitirá que as operadoras gastem menos em infraestrutura para levar 4G à zona rural, além de ampliar a capacidade das redes conforme a demanda também com menor custo.


A adoção de uma faixa de frequência que já é amplamente usada por outros países para internet móvel também deve gerar outros benefícios nos próximos anos. “A faixa de espectro escolhida pelo Brasil e outros países, como China e Índia, deve se tornar a mais popular do mundo em número de assinantes. Isso vai estimular o ganho de escala em termos de equipamentos e infraestrutura e dispositivos móveis compatíveis, o que vai beneficiar os usuários”, diz Pearson. Apesar disso, mesmo em longo prazo, o uso da faixa de 700 MHz não deve resultar em queda significativa no preço da internet móvel. “As operadoras ganharão mais eficiência, mas estão gastando muito com a compra da frequência e ‘limpeza’ da faixa. O preço do 4G continuará sendo fixado pela competição no mercado”, diz Tude.

Para usar o 4G nas duas faixas de frequência, os usuários também vão precisar de smartphones compatíveis com a frequência de 2,5 GHz e também de 700 MHz, ainda inexistentes no mercado brasileiro. "A tendência é de que os smartphones lançados nos próximos anos sejam compatíveis com a maioria de faixas de frequência usadas em todo o mundo", diz José Augusto de Oliveira Neto, CTO da Huawei, fabricante chinesa de equipamentos de infraestrutura e dispositivos móveis. Os modelos vendidos em países do exterior que também utilizam a faixa de 700 MHz para o serviço de telefonia celular também serão compatíveis com a rede brasileira. Contudo, nem todos os países adotam o mesmo padrão para a internet móvel nesta frequência. "Apesar de os Estados Unidos usarem a faixa de 700 MHz, os dispositivos 4G comprados lá não vão funcionar no Brasil", explica o executivo.

Apesar do leilão dos 700 MHz estar prestes a acontecer, as operadoras não poderão usar a frequência para expandir a rede 4G do dia para a noite. A Anatel só vai liberar a faixa para as operadoras daqui a alguns anos. “A primeira parte da cobertura 4G será feita com a faixa dos 2,5 GHz, mas as operadoras poderão usar os 700 MHz para ampliar a capacidade da rede a partir do final de 2019”, diz Tude. O uso imediato dos 700 MHz para o 4G não é permitido porque a faixa está ocupada pelos canais de TV no intervalo entre o 52 e 69. “Esses 18 canais terão que ser alocados entre os canais 14 e 51, que ocupam a faixa entre 470 MHz e 698 MHz”, diz Olimpio José Franco, presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET).

Além do alto custo da troca de equipamentos, as emissoras afetadas têm receio de que o uso da faixa de 700 MHz para a telefonia móvel cause um apagão na TV em algumas regiões do país - segundo a Anatel, cerca de 1.400 municípios devem sofrer o impacto da destinação da faixa para serviços de telecomunicações. As estações rádio-base das operadoras podem causar interferências em antenas internas e externas usadas em residências, em especial em regiões onde o sinal analógico ainda não foi substituído pelo digital. Um estudo encomendado pela SET ao Laboratório de TV Digital da Universidade Presbiteriana Mackenzie demonstrou que as interferências em canais próximos à faixa de 700 MHz podem, em alguns casos, interromper a programação, congelar as imagens ou até exibir tela negra. “Os resultados mostram que será necessária uma combinação de diversas medidas, entre elas alteração das antenas, uso de filtros nas TVs e também nas estações rádio-base”, diz Franco.

No edital de licitação, a Anatel reconhece que pode haver interferência causada pela telefonia móvel e garante que o ônus da mudança ficará por conta das operadoras. “Queremos garantir a convivência da radiodifusão e do serviço de telefonia celular”, diz Rezende, da Anatel. Ao fim do leilão, as vencedoras terão que dividir uma despesa estimada em R$ 3,6 bilhões, valor que permitirá ressarcir os radiodifusores. A quantia será distribuída pela Entidade Administradora do Processo de Redistribuição e Digitalização dos Canais de TV e RTV, empresa a ser fundada pelas operadoras vencedoras. Ela será responsável por conduzir a realocação dos canais, planejar a mitigação das interferências do serviço de telefonia móvel na programação de TV (e vice-versa), além de distribuir conversores de TV digital para os cadastrados no Bolsa Família. Embora as providências necessárias estejam previstas, colocá-las em prática pode levar mais tempo que o planejado. “Liberar a frequência dos 700 MHz para o 4G vai dar muito trabalho”, avalia Tude.

Com informações de Veja.

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