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Imposto de importação eleva preços no varejo e não cria empregos

Cristino Melo
6 min de leitura

Quase dois anos após a criação da “taxa das blusinhas”, um novo estudo aponta que o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais online de até US$ 50 resultou em aumento expressivo de preços no varejo nacional, sem qualquer contrapartida em geração de emprego e renda. A pesquisa foi conduzida pela Global Intelligence and Analytics, encomendada pela Amobitec.

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O levantamento analisou dados públicos de 2018 a 2025, com base em fontes como a Receita Federal e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). A medida foi criada pelo Art. 32 da Lei 14.902 e entrou em vigor em 1º de agosto de 2024, após aprovação no Congresso Nacional e sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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O argumento à época era de que a taxação promoveria concorrência mais justa e estimularia a criação de empregos e renda para trabalhadores brasileiros. Essa promessa, segundo o estudo, não se concretizou. Os benefícios foram absorvidos pelas próprias empresas do varejo nacional, que ampliaram suas margens de lucro por meio da elevação de preços ao consumidor.

VAREJO EMBOLSA LUCROS, CONSUMIDOR PAGA A CONTA

De acordo com a pesquisa, o varejo nacional não repassou ganhos aos trabalhadores do setor. Em vez disso, elevou os preços ao consumidor de forma expressiva. Os produtos com maiores aumentos em um ano de tarifa foram:

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  • Cosméticos: alta de 17%
  • Bijuterias: alta de 16%
  • Papelaria: alta de 13%
  • Calçados: alta de 9%
  • Vestuário: alta de 7,1%
  • Brinquedos: variação pouco perceptível

Esses reajustes contribuíram para pressionar a inflação de 5,23% divulgada pelo IBGE no período. “A alta dos preços no varejo nacional foi expressiva. Dado que não houve efeito positivo na geração de emprego e renda, é possível inferir que a política contribuiu para o aumento da margem de markup de grandes corporações. Não houve o retorno social esperado”, avaliou André Porto, diretor-executivo da Amobitec.

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SEM EVIDÊNCIA DE IMPACTO NO EMPREGO

O estudo utilizou metodologias econométricas para comparar a evolução de emprego e salários antes e depois da taxação em dois grupos distintos de setores do varejo nacional:

GrupoSetoresResultado após a taxa
Expostos à concorrência internacionalVestuário, calçados, eletrônicos, brinquedos, papelariaSem crescimento diferenciado de emprego ou salário
Controle (menos expostos)Setores da mesma CNAE sem concorrência direta com importadosEvolução idêntica ao grupo exposto

Os resultados não identificaram diferenças estatisticamente relevantes entre os dois grupos após a implementação da medida. Mesmo nos setores diretamente protegidos pela taxa, emprego e salários evoluíram igual ao restante do varejo, indicando que a tarifa não funcionou como fator de estímulo específico.

Os salários pagos pelo varejo beneficiado ficaram em torno de R$ 2,6 mil mensais em 2025, bem abaixo do rendimento médio real dos brasileiros, que superou R$ 3,6 mil mensais no mesmo período, conforme dados da PNAD Contínua. A desigualdade salarial reforça a conclusão de que a taxa não gerou melhorias concretas para os trabalhadores do setor.

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QUEDA NA DEMANDA E IMPACTO NAS CLASSES C, D E E

Desde a vigência do imposto, a demanda originada no Brasil por produtos no e-commerce internacional registrou queda média de 19,4% até julho de 2025. Quando comparada a um cenário hipotético sem a taxa, a redução nos pedidos pode chegar a 56%, revelando impacto indireto significativo sobre o consumo das famílias brasileiras.

Governo zera aliquota de imposto de importação de bens de telecom

Os consumidores mais afetados foram os das classes D e E, com renda mensal de até R$ 3,5 mil, e os da classe C, com até R$ 10,8 mil, que juntos representam 67,5% do público total das plataformas internacionais. As importações de pequeno valor representam apenas 1,58% do PIB do setor de comércio, o que evidencia uma política de alto impacto social para um resultado econômico proporcionalmente irrelevante.

DEBATE POLÍTICO E O FUTURO DA TAXA

A revogação do tributo está em debate no governo federal, que estuda a edição de uma Medida Provisória. No Congresso Nacional, dois projetos de lei em tramitação discutem a extinção da tarifa e a readoção do “de minimis”, regime que isenta de impostos as remessas internacionais de baixo valor. A CNI, por outro lado, afirma que a taxa preservou mais de 135 mil empregos e impediu a entrada de R$ 4,5 bilhões em produtos importados.

Para a Amobitec, os dados falam por si. “Para nós, está muito claro que a política pública é ineficiente, ela é regressiva, atinge principalmente a população mais pobre e não está atingindo o fim que se pretende”, afirmou Porto. O debate envolve ainda empresas como 99, Alibaba, Amazon e Shein, que pressionam por uma revisão do imposto de importação antes das eleições.

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