Carlos Slim dá grande passo para expandir-se na Europa

SLIM


O bilionário mexicano Carlos Slim ofereceu US$ 3,4 bilhões para aumentar a participação na alquebrada operadora holandesa de telecomunicações Royal KPN NV. O anúncio gerou especulações de que o homem mais rico do planeta poderia começar a adquirir ativos europeus em baixa e enfrentar a espanhola Telefónica SA no próprio “quintal” da velha rival.
A América Móvil SAB, parte do grupo de Slim e a maior operadora de telefonia celular da América Latina, fez uma oferta na segunda-feira para elevar sua participação na antiga estatal holandesa de 4,8% para 28%. Ofereceu 8 euros (US$ 10,44) por ação, um prêmio de 24% sobre a cotação da ação no fechamento da segunda-feira.

A ação da KPN disparou. Investidores especulavam que Slim poderia simplesmente tentar assumir o controle da empresa. Na terça-feira em Amsterdã, a ação da KPN subiu 17%, para 7,58 euros.

Pela legislação holandesa, um acionista que detenha 30% ou mais de uma empresa é obrigado a fazer uma oferta pública pelas ações de todos os demais investidores.

Muitos investidores questionaram a decisão da empresa mexicana de entrar no conturbado mercado europeu, onde o crescimento é fraco, a concorrência acirrada e a regulamentação pesada. Os ADSs (“American Depositary Shares”) da América Móvil na Bolsa de Valores de Nova York caíram ontem 9%, para US$ 25,53. Foi uma das quedas mais acentuadas da ação em anos, que varreu US$ 9 bilhões do valor de mercado da empresa.

Outros, contudo, deram um voto de confiança à jogada de Slim, um homem visto por muitos como a contrapartida mexicana do megainvestidor americano Warren Buffett. Segundo eles, a aquisição segue a regra tradicional de Slim de comprar ativos em tempos difíceis. Antes da terça-feira, a KPN tinha perdido 40% do valor de mercado em 12 meses, um dos maiores declínios no setor de telecomunicações da Europa.

“O Slim é muito bom para comprar bons ativos e na administração em um mercado em baixa”, disse Damian Fraser, diretor de renda variável para a América Latina do banco de investimentos UBS. “É uma ação bem barata, que lhe dá conhecimento e uma presença na Europa”.

A nova investida de Slim, cujo patrimônio líquido é estimado em US$ 69 bilhões, leva a velha rivalidade com a Telefónica na América Latina para a própria casa da empresa espanhola.


A América Móvil — dona no Brasil da Claro, Net e Embratel — e a Telefónica são as duas maiores companhias telefônicas da América Latina, disputando ferozmente mercados como México e Brasil. A KPN é dona da E-Plus, uma operadora de telefonia celular alemã que compete com a O2, da Telefónica, e de uma pequena empresa de celular na Espanha, a Simyo.

A primeira investida de peso de Slim para fincar pé na Europa se deu em 2007. Foi frustrada pela Telefónica, que bateu a empresa mexicana na compra de uma fatia minoritária na Telecom Italia.

A KPN declarou que a oferta de Slim, que teria de ser aprovada pelas autoridades holandesas, atribui à empresa um valor “consideravelmente” baixo e que buscaria esclarecimentos sobre as intenções da América Móvil.

A América Móvil declarou que não tem interesse em elevar a participação na KPN acima dos 28% e espera ter um “relacionamento duradouro” com a gestão da empresa e seus acionistas.

A operadora mexicana tem 246 milhões de clientes de telefonia celular em 18 países. Ultimamente, seu estonteante ritmo de crescimento começou a topar com limites, levando a empresa a buscar oportunidades em outras regiões. No México, onde já tem 70% do mercado, há quase tantos celulares quanto habitantes. Ou seja, a expansão da base de assinantes desacelera.

Carlos García Moreno, diretor financeiro da América Móvil, disse que a empresa correu os olhos pela Europa e considerou a KPN — que atua em telefonia convencional e celular nos mercados da Holanda, Bélgica e Alemanha — como a mais adequada para o investimento.

Certos acionistas da América Móvil temem que o investimento — embora a um preço provavelmente bom e equivalente a uma pequena fatia do valor total de mercado da América Móvil — marque o início de uma onda de aquisições na Europa que derrubaria a capacidade da empresa mexicana de dar retorno aos acionistas. A América Móvil gera cerca de US$ 1 bilhão em caixa livre por mês, significativamente mais que seus pares, disseram analistas.

“Nossa esperança era que a empresa tivesse desistido da expansão na Europa e que fosse devolver o dinheiro em caixa aos acionistas. Ao que parece, não será assim”, escreveu a clientes o analista Carlos Sequeira, do BTG Pactual. Sequeira rebaixou sua classificação da América Móvil de “comprar” para “neutro”.

Outros analistas disseram que a intenção de Slim provavelmente era manter abertas suas opções, para usar a compra como um lance estratégico na Europa ou simplesmente um bom investimento. Ainda que decida mais à frente que adquirir o controle da empresa custaria caro demais, Slim pode ter um retorno decente, já que o dividendo anual da KPN tem um retorno médio de cerca de 12%, disse Fraser, do UBS. “Não há muito a perder”, disse ele.

Em várias ocasiões, o bilionário já provou que tinha razão — e o mercado, não. Entrou no mercado de telefonia celular da Argentina pouco depois de 2000, no auge da crise financeira do país. E, em seguida, no Brasil, quando muitos analistas achavam que o país podia dar o calote na dívida. Nos dois casos, a aposta foi acertadíssima.

“Investir no atual cenário [macroeconômico] da Europa nos faz lembrar de alguns dos investimentos mais baratos que a América Móvil fez para montar sua presença na América Latina cerca de dez anos atrás”, disse Andrew Campbell, analista do Credit Suisse, em nota a clientes.

Filho de um imigrante libanês que saiu comprando ativos durante a revolução mexicana para montar uma próspera empresa de varejo, Slim há muito exibe o mesmo tino do pai para farejar ativos desvalorizados, sobretudo em tempos de crise.

Parte de seu império, que vai de operações de telefonia a mineração, foi construído durante as repetidas desvalorizações cambiais do México em 1976 e 1982, quando muitas empresas no país foram vendidas a preço de banana.

Slim entrou no setor de telefonia em 1990, quando comprou a antiga estatal mexicana, a Teléfonos de México SA. De lá para cá, botou ordem na casa e derrotou adversários, ao usar a rede da empresa para cobrar caro para completar ligações e se valer do bizantino sistema judiciário do país para retardar investidas de concorrentes.

Mas, mesmo em casa, o crescimento de Slim é cada vez mais limitado. Na condição de homem mais rico do mundo, está sob vigilância maior de órgãos reguladores e governantes. No ano passado, o Supremo Tribunal do México decidiu que sua empresa já não podia ignorar as decisões de reguladores do mercado telefônico enquanto o recurso da empresa corria na Justiça. Isso obrigou sua operadora de celular a derrubar drasticamente tarifas de interconexão cobradas de rivais.

O interesse de Slim na combalida KPN fez alguns investidores especularem que a mexicana poderia trocar ativos com a Telefónica, dando à empresa espanhola a E-Plus na Alemanha em troca de uma operação da Telefónica na América Latina ou algum outro lugar.

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